Jia Zhang-ke empodera Zhao Tao em Cannes: atuação mais primorosa do evento

Jia Zhang-ke empodera Zhao Tao em Cannes: atuação mais primorosa do evento

Rodrigo Fonseca

11 Maio 2018 | 22h56

Zhao Tao tem atuação impecável em “Ash is the Purest White”

Rodrigo Fonseca
Tem um diálogo arrebatador em Ash Is The Purest White, do sempre encantador (e nunca óbvio) diretor chinês Jia Zhang-ke, que concorre à Palma de Ouro. Lá pelo terço final, a protagonista chama o homem que ama na chincha e passa a limpo as mágoas que guarda dele, recebendo como resposta um desanimador: “Não poderia imaginar que tenho tanta importância assim pra você”. Com um misto de ação, drama romântico e fantasia, o longa-metragem deu ao Festival de Cannes sua personagem feminina mais forte, e mais antenada com o pleito por empoderamento das mulheres: Qiao, vivida de modo impecável por Zhao Tao. Namorada de um gângster, a quem dá ajuda em uma série de pequenos afazeres, ela vai ter sua vida virada do avesso como paga por esse amor ilegal, mas não vai desistir de seus sentimentos nem das certezas que a levam adiante. É o melhor trabalho de atriz até agora.  “O dinheiro virou o epicentro das relações humanas, mas, quando você sai por um país tão gigante e tão cheio de contradições geopolíticas como a China, observando o quão grande é a complexidade humana, passa-se a relativizar as relações econômicas e buscar o que realmente dá sentido às pessoas”, disse Jia ao P de Pop,

Realizador de As Montanhas se Separam (2015), Jia faz um melodrama aqui. Mesmo com uma derrapada de ritmo aqui e acolá – algo perfeitamente normal a um cineasta que esnoba a linearidade convencional do storytelling -, o chinês galga degraus mais ambiciosos em sua evolução como artista, criando uma ponte com a tradição de um gênero com o qual não é íntimo e produzindo, a partir dela, sequências comoventes.

Falando de bambas da Ásia, a Croisette está seca de curiosidade pela japanimation Mirai of the Future, que só passa aqui na quarta. Trabalho mais recente do ás dos animês Mamoru Hosoda, realizador do cult O Rapaz e o Monstro (2015), esta produção acompanha as viagens no tempo de um garotinho capaz de saltar de passado em passado acompanhado por uma versão juvenil de sua mãe. Cannes chega ao fim no dia 19, com a entrega da Palma de Ouro, tendo (até agora) Cold War e Leto como seus mais fortes competidores. Na mostra Un Certain Regard, só se fala agora de El Ángel, produção argentina sobre um ladrão e assassino que foi preso por uma série de mortes. Luis Ortega assina a direção.