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‘Indignação’ com talento brasileiro na Berlinale
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Rodrigo Fonseca

14 Fevereiro 2016 | 10h26

Sarah Gadon e Logan Lerman estrelam "Indignação", filme de estreia de James Schamus como realizador, após uma celebrada carreira como produtor e roteirista

Sarah Gadon e Logan Lerman estrelam “Indignação”, filme de estreia de James Schamus como realizador, após uma celebrada carreira como produtor e roteirista

Parceiro de Ang Lee em nove longas-metragens, incluindo o oscarizado blockbuster O Tigre E o Dragão (2000) e o cult Tempestade de Gelo (1997), o produtor e roteirista James Schamus promete comover o 66º Festival de Berlim neste glacial domingo de Dia dos Namorados nos EUA e na Europa com Indignation, uma produção Brasil-EUA. Produzido numa dobradinha entre as companhias gringas Likely Story  e Bing Feng Bao Entertainment e a paulistana RT Features, este drama baseado na literatura de Philip Roth marca a estreia de Schamus como realizador. Em seu primeiro exercício como cineasta, ele recria os EUA dos anos 1950, a partir dos percalços afetivos de um jovem judeu pobre de Nova Jersey (vivido por Logan Lerman) que vai tentar mudar sua sorte estudando em Ohio. Mas lá, o ambiente que encontra é marcado por idiossincrasias sexuais, políticas e religiosas.

“Este filme se ambienta em uma América que parece não perceber a gravidade trágica que é a Guerra da Coreia, um conflito responsável por muitas mortes, cuja dimensão real não costuma ser mesurada. Eu descobri Indignação, o livro de Roth, numa das muitas passagens que faço por aeroportos e, apesar de grande, devorei-o com a maior avidez pelo retrato que ele pinta de um período de contrastes”, disse Schamus ao P de Pop em Berlim. “Veja que estamos na década de 1950 e a condição feminina está num limite de afirmação. Mas, em paralelo, temos a repressão sexual se recrudescendo e o McCarthismo surgindo como uma prática de censura na arte”.

Produção EUA-Brasil, o longa recria a América dos anos 1950

Produção EUA-Brasil, o longa recria a América dos anos 1950, entre a repressão e o antissemitismo

Indicado a três Oscars nos anos 2000, Schamus já vem sendo citado como potencial concorrente em 2017 pela excelência de sua adaptação da prosa de Roth, valorizando a intensidade da solidão de seu protagonista, Marcus Messner, interpretado por Lerman. Segundo o cineasta, a incursão pelo ofício de cineasta foi viabilizada por um método de trabalho nas raias da chatice.

“Minha maior preocupação era fazer com que os atores se sentissem bem. E, para que isso acontecesse, antes das filmagens, eu tinha conversas de criação com a equipe nas quais descrevia cada cena a ser filmada, com cada ângulo, cada possível corte, de uma maneira superdetalhista… chata. Levantávamos, cena a cena, referências que pudesse dialogar com cada imagem que esperávamos construir. A gente pegava uma cena qualquer e listava todos os filmes ou programas de TV que tivessem algum aspecto similar. E, pouco a pouco, no evoluir da conversa, essas referências iam sumindo, para que buscássemos algo nosso. Era apenas uma forma de eu me calçar para mostra para meus colegas que sabia bem o que eu queria fazer”, explica Schamus, que acaba de entregar a Hollywood um roteiro (“muito desgastante e difícil de fazer”, segundo ele) para um projeto chamado Zealot, sobre um personagem bem popular. “É sobre um cara chamado Jesus Cristo, sabem quem é?”, brincou ele, na Berlinale.

Sobre a participação brasileira em Indignation, Schamus falou que a troca com os produtores Lourenço Sant’Anna e Rodrigo Teixeira foi algo mais do que uma simples negociação. “Esses dois são cinéfilos, acima de tudo”, diz o diretor. “Falávamos sobre filmes o tempo todo”.

 

 

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