‘Guerra Fria’ aquece corações em Cannes

‘Guerra Fria’ aquece corações em Cannes

Rodrigo Fonseca

11 Maio 2018 | 05h28

Joanna Kulig vive a cantora Zula em “Cold War”: duas décadas de um desvairado amor

Rodrigo Fonseca
Filmes sobre as imposturas do querer sempre tiveram boa sorte em Cannes, vide Quando Voam as Cegonhas (1957), Um Homem, Uma Mulher (1966), O Azul é a Cor Mais Quente (2013) e, agora, Cold War, um espetáculo de sinestesia à moda polonesa, porém de representação universal, que confirma (e refina) a maestria do diretor Pawel Pawlikowski (do oscarizado Ida) sobre o preto e branco e sobre a inaptidão de nosotros todos sobre as exigências do coração. O Palais des Festivals veio abaixo quando o filme acabou, com seu misto (aparentemente incombinável) de solenidade formal e loucura romântica dionisíaca. Erguido a partir de composições de quadro que potencializam cada elemento (visível ou não) em cena, dando a cada elemento no plano uma hierarquia, o longa-metragem é uma celebração (como raro se vê) da paixão como força incondicional. Ao longo de quase duas décadas, num contexto de Guerra Fria, entre o fim dos anos 1940 e meados da década de 1960, indo e voltando da Polônia, um maestro e compositor, Wiktor (Tomasz Kot, em sublime atuação), e uma cantora, Zula (Joanna Kulig), vão enfrentar de tudo para ficarem juntos, incluindo a própria temeridade diante da entrega. Mas é o Estado quem mais (e pior) vai triangular com eles. Temos aqui um filme monumental, à altura do legado que os dois maiores cronistas cinematográficos do verbo amar – o inglês David Lean de um lado, com Desencanto e Dr. Jivago; e o francês François Truffaut do outro, com A Mulher do Lado – nos deixaram. Que venham os prêmios, pois, até agora, nada de Cannes chegou à sua altura. O segundo lugar é o russo Leto (L’été), musical vivo, inquieto e também em P&B.
Sexta é dia de Bergman na Croisette, comemorando os cem anos de nascimento do mestre sueco morto em 2007: vai ter projeção de O Sétimo Selo remasterizado e doc da alemã Margueritte von Trotta (êta diretora bacana!) sobre ele.