Gramado celebra tudo o que Marco Ricca deu e dá (de bom) a nosso cinema

Gramado celebra tudo o que Marco Ricca deu e dá (de bom) a nosso cinema

Rodrigo Fonseca

27 Agosto 2017 | 11h11

Marco Ricca (em cena, ao lado da ótima Priscila Bittencourt) deixa Gramado com o Kikito de melhor coadjuvante pelo drama “As Duas Irenes”, uma pepita goiana

Rodrigo Fonseca
Por méritos incontestáveis, no trinômio forma + conteúdo + comunicabilidade, Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, foi eleito Melhor Filme no encerramento (sábado) do 45º Festival de Gramado, numa oportuna conciliação com o cenário mercadológico de nosso cinema, uma vez que esta produção dos irmãos Gullane estreia nesta quinta. E igualmente merecido foi o destaque a um adocicado drama geracional de CEP goiano, As Duas Irenes, que além de receber os troféus de Melhor Roteiro e Direção de Arte (um brinco!), e o Prêmio da Crítica, conquistou uma vitória que realiza uma correção histórica: a láurea de Melhor Ator Coadjuvante para Marco Ricca. Seu desempenho em cena, como um signo do patriarcado mais conservador, é devastador, abrindo diversas deixas para o debate sobre a confusão entre virilidade, hombridade e abuso machista. Sua atuação é movida a gestos e olhares que traduzem a profundidade de uma alma pantanosa, mas solitária. Mais do que ser um intérprete visceral, que redesenhou a maneira de atuar na Retomada seja em filmes hoje invisíveis, tipo Até Que a Vida Nos Separe (1999), seja em realizações míticas, tipo O Invasor (2001), Ricca tem uma ativa contribuição em nosso audiovisual como produtor, tendo ainda dirigido o febril Cabeça a Prêmio (2009). Faz tempo que ele merecia um mimo (à altura de um Kikito) para coroar seu talento e sua perseverança, que já haviam iluminado Gramado, em anos recentes, à frente de Os Fins e Os Meios (em 2015) e Amigos (em 2013).

Exibido (e aplaudido) no Festival de Berlim, em fevereiro, na mostra Geração, As Duas Irenes nos apresenta uma menina que descobre ter uma irmã de uma união extraconjugal do pai, vivido por Ricca. As Irenes do título são um achado: Priscila Bittencourt e Isabela Torres, por esbanjarem carisma e firmeza na composição da dor e do desamparo. Com uma sutileza capaz de evocar a placidez de Joaquim Pedro de Andrade no imortal O Padre e a Moça (1965), o filme de Fábio Meira acompanha a relação (silenciosa) que se estabelece entre essas duas e usa essa aproximação de mundos para cartografar relações (e abusos simbólicos de poder) num universo regido por leis morais hoje caducas (mas ainda severas). Em meio à sua geografia de afetos, o cineasta processa dispositivos de antropologia e sociologia num amálgama de observação, análise crítica e poesia que carrega, além de Joaquim, um ar de Humberto Mauro. É cinema novíssimo, mas com perfume de tradição.

Em sua seleção de filmes estrangeiros, o Gramado sorriu com prêmios para o drama argentino Sinfonia para Ana, de Ernesto Ardito e Virna Molina. Entre os curtas, venceu o documentário de combate à homo e à transfobia A Gis, de Thiago Carvalhaes, que se destaca não apenas como denúncia, mas como narrativa de inquietação. E ainda sobraram prêmios de trilha musical e direção de arte para a deliciosa animação O Violeiro Fantasma, de Wesley Rodrigues.

 

VENCEDORES 45º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky
Melhor Direção: Laís Bodanzky, por “Como Nossos Pais”
Melhor Atriz: Maria Ribeiro, por “Como Nossos Pais”
Melhor Ator: Paulo Vilhena, por “Como Nossos Pais”
Melhor Atriz Coadjuvante: Clarisse Abujamra, por “Como Nossos Pais”
Melhor Ator Coadjuvante: Marco Ricca, por “As Duas Irenes”
Melhor Roteiro: Fábio Meira, por “As Duas Irenes”
Melhor Fotografia: Fabrício Tadeu, por “O Matador”
Melhor Montagem: Rodrigo Menecucci, por “Como Nossos Pais”
Melhor Trilha Musical: Ed Côrtes, por “O Matador”
Melhor Direção de Arte: Fernanda Carlucci, por “As Duas Irenes”
Melhor Desenho de Som: Augusto Stern e Fernando Efron, por “Bio”
Melhor Filme – Júri Popular: “Bio”, de Carlos Gerbase
Melhor Filme – Júri da Crítica: “As Duas Irenes”, de Fabio Meira
Prêmio Especial do Júri: Carlos Gerbase, pela direção dos 39 atores e atrizes em “Bio”
Prêmio Especial do Júri – Troféu Cidade de Gramado: Paulo Betti e Eliane Giardini, pela contribuição à arte dramática no teatro, televisão e cinema brasileiros

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Melhor Filme: “Sinfonia Para Ana”, de Virna Molina e Ernesto Ardito
Melhor Direção: Federico Godfrid, por “Pinamar”
Melhor Atriz: Katerina D’Onofrio, por “La Ultima Tarde”
Melhor Ator: Juan Grandinetti e Agustín Pardella, por “Pinamar”
Melhor Roteiro: Joel Calero, por “La Ultima Tarde”
Melhor Fotografia: Fernando Molina, por “Sinfonia Para Ana”
Melhor Filme – Júri Popular: “Mirando al Cielo”, de Guzman García
Melhor Filme – Júri da Crítica: “Pinamar”, de Federico Godfrid
Prêmio Especial do Júri: “Los Niños”, de Maite Alberdi

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: “A Gis”, de Thiago Carvalhaes
Melhor Direção: Calí dos Anjos, por “Tailor”
Melhor Atriz: Sofia Brandão, por “O Espírito do Bosque”
Melhor Ator: Nando Cunha, por “Telentrega”
Melhor Roteiro: Carolina Markowicz, por “Postergados”
Melhor Fotografia: Pedro Rocha, por “Telentrega”
Melhor Montagem: Beatriz Pomar, por “A Gis”
Melhor Trilha Musical: Dênio de Paula, por “O Violeiro Fantasma”
Melhor Direção de Arte: Wesley Rodrigues, por “O Violeiro Fantasma”
Melhor Desenho de Som: Fernando Henna e Daniel Turini, por “Caminho dos Gigantes”
Melhor Filme – Júri Popular: “A Gis”, de Thiago Carvalhaes
Melhor Filme – Júri da Crítica: “O Quebra-Cabeça de Sara”, de Allan Ribeiro
Prêmio Canada 150 de Jovens Cineastas: Calí dos Anjos (“Tailor”)
Prêmio Canal Brasil de Curtas: “O Quebra-Cabeça de Sara”, de Allan Ribeiro
Prêmio Especial do Júri: “Cabelo Bom”, de Swahili Vidal e Claudia Alves