Grace Passô atropela a Première Brasil com sua glória

Grace Passô atropela a Première Brasil com sua glória

Rodrigo Fonseca

08 Outubro 2017 | 11h24

Digão Ribeiro corteja Grace Passô em “Praça Paris”: atuações redentoras

Rodrigo Fonseca
Em sua arrancada inicial, de quinta pra cá, com A Forma da Água, o Festival do Rio fez da celebração das diferenças (sexuais, raciais, multicuturais e até nerds) o foco desta sua edição de 2017 nas mais variadas latitudes, a começar por um curta-metragem seminal para estes nossos dias que virou “a” cara do evento: a animação Tailor, de Cali dos Anjos, sobre transgêneros. Mas o aspecto que mais salta aos olhos, e mais merece aplausos, é a onipresença de BONS papéis para intérpretes negros. Mariana Nunes entra como o Anjo da História de Paul Klee com sua máscara trágica em Zama, de Lucrecia Martel. Idris Elba é o Romeu de Depois Daquela Montanha. Rodrigo dos Santos é a figura da lei no inquieto Aos Teus Olhos. E Isabél Zuaa se candidata ao posto de musa do horror com seu trabalho em As Boas Maneiras. Mas no sábado, a Première Brasil nos deu um presente, valoroso em especial quando se pensa no whitewashing do pensamento: o drama Praça Paris apresentou ao cinema uma das maiores atrizes do teatro nacional no momento, Grace Passô. Ao lado dela, aprece um outro achado: Digão Ribeiro, que ocupou toda a telona do Lagoon não por seu corpanzil, mas por seu carisma e sua inteligência cênica.

Não há fresta que Grace e Digão não ilumine nas vielas que se formam perpendiculares à Praça Paris, mesmo em cenas que soam forçadas, como a de uma tortura um tanto caricata, e das alfinetadas nos legados da UPP. Embora engasgado num determinismo sociológico datado (meio anos 1970), típico da obra da diretora Lucia Murat, o filme se faz necessário por múltiplas razões, sobretudo por seu carinho com o lugar político da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ, e pela reflexão sobre a cena carcerária carioca. Neste ponto, a cineasta mostra a maestria (de mundo e de meios) com a qual já havia produzido o perturbador Quase Dois Irmãos, de 2004. E há um tom de thriller psicológico, que redesenha e redefine o filme lá pelo fim e que se alimenta, bastante, do talento dramatúrgico (como roteirista) de um dos mais provocativos escritores do Brasil hoje: Raphael Montes (de Dias Perfeitos). Ele escreve o filme a quatro mãos com Lucia, oxigenando de ideias uma narrativa que se emperra numa montagem um tanto deslocada, emperrada.

Filme conta com o texto de Raphael Montes, um dínamo da prosa, no roteiro

Grace, da peça Vaga Carne, desenha uma nova instância de representação de mulher da periferia no papel de Glória, uma ascensorista cujo irmão é um chefe do tráfico e cumpre pena sob o olhar atento da Polícia. Ela extravasa os nós do peito falando prum pastor (Babu Santana, sempre no ponto) e para uma jovem psicanalista que faz seus estudos de pós na UERJ, a jovem portuguesa Camila (Joana de Verona). Digão entra como Samuel, o motoboy que mexe com a libido de Glória. Espera-se uma relação especular entre ela e Camila, mas o filme não estabelece essa parelha com harmonia. Temos duas mulheres que se confrontam no olhar. Mas, apesar do talento inequívoco de Joana, é Grace quem vai desenhar as curvas de ação, deitando e rolando nos hiatos morais de Glória, fazendo dela uma personagem única.