Gauguin nas pinceladas de Vincent Cassel

Gauguin nas pinceladas de Vincent Cassel

Rodrigo Fonseca

14 Fevereiro 2018 | 16h11

Cores de Gauguin valorizam a paleta de gestos e olhares de Vincent Cassel, em filme francês pouco valorizado: tá no menu da Air France

Rodrigo Fonseca
Campeão de bilheteria, queridinho em Hollywood, fã do Brasil e muso europeu do cinema autoral brasileiro, Vincent Cassel costuma fazer anualmente de três a quatro longas-metragens, o que, por vezes, ofusca o brilho midiático de certas produções menos endinheiradas de que participa como o belíssimo Gauguin – Voyage de Tahiti. Ignorada pelos maiores festivais do Velho Mundo, lançada sem alarde em setembro em seu país, este biopic do pintor Paul Gauguin (1848-1903) revê a jornada polinésia  do artista plástico em busca de uma transcendência radical de sua condição burguesa de berço. Quem zapear o menu aéreo de atrações cinéfilas dos voos Air France vai se deparar com o longa lá. Na França, a arrecadação de arrancada do filme foi alta: foram cerca de 85 mil pagantes em seu primeiro fim de semana. Mas não virou fenômeno. A direção é de Edouard Deluc (do belo curta ?Dónde Está Kim Basinger?), que finta o exotismo verde a seu redor para explorar a geografia de uma alma devastada pelo desejo de liberdade e de transgressão a qualquer preço. A narrativa se passa a partir de 1891, recriando o périplo de dois anos de Gauguin no Taiti, nos braços da nativa Tehura (Tuheï Adams), com foco no ônus existencial que esse relacionamento traz a um coração já fatigado por intolerâncias ao bom comportamento, envenenado por excessos. Sua obra bebe da paleta de cores das matas à sua volta o quanto pode. Mas o colorido da vida na relva não ofusca o preto e branco do desamor e da insatisfação. Cassel tem um desempenho memorável no roteiro, que acerta pela aposta em uma exploração mais psicológica e menos paisagística. Este ano, o astro brilhará também em O Grande Circo Místico, o melhor filme de Cacá Diegues em anos.