‘Fome, o Musical’: a moqueca da irreverência

‘Fome, o Musical’: a moqueca da irreverência

Rodrigo Fonseca

17 Agosto 2017 | 10h11

Zé Pereira de um carnaval antropofágico, Paulo Tiefenthaler vira uma panela de pressão humana no musical “Fome”, no RJ: descarrego e debate no palco

Rodrigo Fonseca
Telecurso teatral sobre práticas alimentares, com dicas sobre o uso da cenoura azul, da berinjela branca e do milho Omulu, Fome, o Musical, misto de micareta com especial do National Geographic feito para os palcos, cai na cabeça do espectador como um banho de descarrego na rotina do meio de semana. Agendado às terças e quartas no Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio de Janeiro, onde fica até 23 de agosto, sempre às 21h, o espetáculo de humor, música e degustação de sardinhas no azeite evoca um clássico das telas que tem a cara da usina nuclear chamada Paulo Tiefenthaler: o cult de 1973 A Comilança. No filme de Marco Ferreri, come-se (tanto no sentido nutritivo quanto no sentido bíblico) como uma metáfora da potência, seja ela sexual ou financeira, numa metáfora da bonança burguesa. Mas cada boquinha revela uma verdade sobre a podridão que existe (ou pode existir) dentro de nós. Em Ferreri, o podre é da ordem do político, da dominação, da opressão. Em Tiefethaler (num texto muito mais profundo do que a cantoria faz crer), o podre é biológico: está na ordem de um sistema digestivo viciado em junk food. Mas, numa certa forma, em meio a uma apropriação tropicalista (antropofágica) de vídeos do youtube e documentários da TV inglesa, este Zé Pereira de Santa Teresa – consagrado pelo programa Larica Total – nos leva a uma reflexão sobre o que existe de submissão no consumo do que é embalado ao vácuo do pop. Num trabalho de sinestesia inteligente (e de um humor crescente), folhas de salsinha e azeite de dendê coroam um sopão de sentidos e irreverências que falam sobre nossa bovina disposição a abrir a boca sem qualquer seletividade. E isso não vale só para lanchinhos do fim de noite. Nessa discussão, azeitada com o barbecue da perplexidade, Tiefenthaler diverte e provoca no papel de um mestre de cerimônias sem nome, mas de personalidade febril.

Fome, o Musical é um prato pra consumir sem moderação e repetir sempre que estiver em cartaz.

p.s.: Há um ano, Tiefenthaler ganhou o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado por O Roubo da Taça, uma das melhores comédias recentes do cinema brasileiro. Quem não viu, corre no NetFlix.