Faroeste de estetoscópio, ‘Sob Pressão’ é um filme de ação padrão Stallone

Faroeste de estetoscópio, ‘Sob Pressão’ é um filme de ação padrão Stallone

Rodrigo Fonseca

11 Outubro 2016 | 12h32

Thelmo Fernandes (de farda) é o destaque de

Thelmo Fernandes (de farda) é o destaque de “Sob Pressão”, um thriller clínico

RODRIGO FONSECA
Remorsos, rancores, raivas e outros bichos dessa espécie que adora se acumular em nó no nosso peito vinham sendo a tônica central da Première Brasil do Festival do Rio 2016, ora numa chave espirituosa (Vermelho Russo), ora na ambiência do trágico (caso do seminal Redemoinho), ou ainda no diapasão do romantismo (caso do mirabel Fala Comigo), até a chega de Sob Pressão, na noite de segunda. Western de estetoscópio, com foco nas estratégias de sobrevivência dos soldados da Medicina em zonas mais carentes de metrópoles como a carioca, o longa-metragem de Andrucha Waddington (Lope) deu à maratona cinéfila carioca um sabor de adrenalina tipo filme ação, padrão Sylvester Stallone, fervendo nervos ao longo de 90 minutos de uma partida contra as contradições sociais do país. A produção destoa do padrão temático da competição nacional aqui, abrindo um veio novo, mais social, aproveitando o empurrão dado pelo (irregular, mas raçudo) thriller Comeback, no domingo. O hiperrealismo é o esperanto com que o longa ganha os ouvidos e os corações do público, retratando operações de coração ou intervenção craniana com uma agudeza quase documental.


Mais conhecido por filmes acerca de um Brasil profundo, telúrico ou litorâneo, seja em ficções como Eu, Tu, Eles (pelo qual foi premiado em Cannes, em 2000) ou em .docs à la Viva São João (2002), Andrucha aproveitou a experiência urbana de Gêmeas (1999) e do blockbuster Os Penetras (2012) para explorar as periferias do Rio usando um hospital como metonímia da exclusão. Apoiado na montagem feérica de Thiago Lima, sua força maior, o cineasta cria uma espécie de geopolítica do Brasil, entre vítimas e algozes, numa Faixa de Gaza assistencial, na qual os médicos suturam mais do que feridas: o bisturi mais afiado é o que desafio os poderes paralelos, seja o da PM, seja o da bandidagem. Nesse aspecto sociológico, Thelmo Fernandes, um ator de talento GG ainda pouco valorizado pelo cinema, alcança, no filme, vulto à altura de seu amplo ferramental interpretativo sob a farda do Capitão Botelho. Signo vivo de abuso de poder, o oficial desarranja a balança ética no embate de forças (quase marxista) da polícia com o corpo de médicos liderado pelo Dr. Evandro (Júlio Andrade, sempre na curva da instabilidade, capaz de desafiar lugares comuns a cada papel).

Filmado na Santa Casa de Misericórdia, em Cascadura, com inspiração no livro Sob Pressão — A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro, do Dr. Marcio Maranhão, o novo trabalho de Andrucha faz do Doutor Evandro uma espécie de herói torto, perto do que Steven Soderbergh fez com Clive Owen em The Knick, na HBO. Lá, temos uma NY no início dos 1990; aqui, temos o subúrbio carioca inflamado entre as balas perdidas da guerra entre traficantes e policiais. E caberá a Evandro, cirurgião-chefe de uma unidade clínica ameaçada de fechamento pela chegada de uma administradora (Andréa Beltrão) faminta por downsizing, manter seus pacientes vivos e seus médicos unidos, usando métodos dignos do MacGyver de Profissão: Perigo (tipo o uso de furadeiras de obra ou o reaproveitamento de sangue derramado. Para isso, ele passa por uma Odisseia de três tarefas dignas dos 12 Trabalhos de Hércules: a) decidir entre salvar um traficante ou reviver um policial baleado; b) ajudar um garotinho baleado na perna; c) salvar um integrante de sua facção de jaleco (não pergunte quem, para não se magoar com spoilers). A aventura entra nessa trifurcação, mas o cineasta nunca nos deixa perder de vista o ponto de chegada mais esperado: o entendimento das crises da Saúde em âmbito público nacional.

Ícaro Silva e Marjorie Estiano são os reforços do Dr. Evandro (Júlio Andrade)

Ícaro Silva e Marjorie Estiano encarnam os reforços do Dr. Evandro (Júlio Andrade)

Além da assombrosa atuação de Thelmo, salta aos olhos a delicada composição de personagem feita pelo ator Ícaro Silva do Dr. Paula, médico galã que serve como braço direito a Evandro. Mas o que mais e melhor se apresenta como saldo (positivo) de Sob Pressão é sua habilidade de importar para as dimensões da tela grande um filão que arde em febre na TV, com séries como E.R. – Plantão Médico, Grey’s Anatomy e House. Consagrado como um nicho campeão de audiência na teledramaturgia, o suspense clínico pode se converter em um ambiente de sucesso na busca do cinema nacional em se pactuar com formatos de gênero.

 

Reginaldo Holyfield em

Reginaldo Holyfield em “A Luta do Século”

Ainda na segunda, antes de Sob Pressão, no canteiro dos documentários em disputa pelo Troféu Redentor, a Première Brasil vibrou e riu de passar mal com uma comédia social disfarçada de documentário: A Luta do Século, do baiano Sérgio Machado, cuja produção é assinada pelo ator Lázaro Ramos. O filme segue os passos das lutas entre os boxeadores Luciano “Todo Duro” Torres, de Pernambuco, e Reginaldo Holyfield, da Bahia, cuja rivalidade é histórica. Até em programas de televisão, um partia para cima do outro, sem distinguir o que seria um embate real de uma simples entrevista. Muita imagem de arquivo e muitas cenas de observação do dia a dia de cada pugilista montam a narrativa, oxigenada pelo destempero de cada um em relação às convenções de disciplina do esporte. Estruturado como um ensaio sobre rivalidade, o filme alcança uma dimensão sociológica ao enxergar os dois como metáforas para formas de sobrevivência moral num continente de abandono e de pobreza como é esta nossa nação.