‘Era o Hotel Cambridge’ desponta rumo ao Redentor na Première Brasil

‘Era o Hotel Cambridge’ desponta rumo ao Redentor na Première Brasil

Rodrigo Fonseca

13 Outubro 2016 | 10h23

Apolo (José Dumont) integra a ocupação de

Apolo (José Dumont) integra a ocupação de “Era o Hotel Cambridge”, premiado em San Sebastián, na Espanha

RODRIGO FONSECA
Termina nesta quinta a seleção competitiva do Festival do Rio 2016 – uma das mais potentes de todas as 18 edições do evento, por mérito de uma curadoria nada inercial de Angélica Oliveira – com a projeção do aguardado Mulher do Pai, da diretora gaúcha Cristiane Oliveira, feito pela mesma turma que nos deu o essencial Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa (2014). No mínimo, se tudo der errado com o longa, o que parece difícil de acontecer, vide os excelentes curtas de Cristiane, como Messalina (2004) e Hóspedes (2009), tem Marat Descartes, à frente do elenco, para segurar a marimba. E qualquer minuto de Marat na telona já é, em si, uma garantia de energia cinemática. Mas agora que a reta final está em primeiro plano, ficou dividido o favoritismo de Redemoinho nas apostas e nas conversas de corredor acerca do potencial ganhador do Redentor de melhor filme: há quem faça fé na engenharia de ação de Andrucha Waddington e seu Sob Pressão e há, desde a noite de quarta, uma torcida formada em torno de Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, que chegou ao país galardoado com uma menção especial no Festival de San Sebastián, na Espanha.

Tema fundamental para redefinições (e inclusões) geopolíticas da contemporaneidade, abordado, este ano, como assunto central em festivais como o de Berlim, a questão dos refugiados políticos incendiou a Première do Rio, fazendo de uma São Paulo de mil desigualdades (e múltiplos combates) seu cenário ao longo dos 90 claustrofóbicos minutos de Era o Hotel Cambridge. Dirigido por uma Eliane Caffé (Kenoma) fiel à sua investigação autoral sobre figuras em deslocamento (em busca de um fixismo cômodo e protetor), o longa-metragem é o mais caudaloso (e rigoroso, na forma) filme da diretora paulista. Nele, imigrantes degredados do Congo, da Palestina, da Síria e da Colômbia se refugiam na hospedaria abandonada do título, em SP, ao lado de um grupo sem teto de distintos CEPs. Lá dentro, um agitador cultural com aptidões para o teatro, Apolo (José Dumont, de volta às telas com som e fúria, em uma atuação de gerar taquicardia), ajuda uma dirigente de movimentos de ocupação (Carmen Silva) a dar um norte para aquela babel de muitas línguas, capaz de fundir não-atores a grandes intérpretes (vide Dumont e Suely Franco, que ilumina a cena a cada aparição).

Longa de Eliane Caffé é um dos favoritos ao troféu Redentor deste ano

É difícil ver outra pessoa que não Dumont recebendo o Redentor de melhor ator este ano, apesar da torcida forte por Marcos Veras, com O Filho Eterno, e do desempenho devastador da dupla formada por Julio Andrade e Irandhir Santos em Redemoinho. Mas, se o mundo fosse justo, o certo mesmo, pela quantidade de tempo em cena, era Dumont ganhar como coadjuvante. Mas… E, como já falou-se aqui, tem Marat ainda a ser visto.

Diverso de tudo o que a realizadora de Narradores de Javé (2003) e O Sol do Meio-Dia (2009) fez até agora, trocando ambientes de um Nordeste profundo pela metrópole nº 1 do país, Era o Hotel Cambridge parece mais um exercício investigativo do que um ensaio propositivo, eletrizado por uma linguagem (bem) equilibrada no arame farpado entre fato e ficção. Tem um quê de arquivo, tem um quê de chat via Skype, tem perfil de rede social e tem um relógio que corre disparado, cronometrando o período que os personagens têm antes de uma possível expropriação. Fica-se pouquinho com cada um no roteiro escrito pela cineasta e por Inês Figueiró, com o aporte do dramaturgo Luiz Alberto de Abreu. Cada momento um refugiado ou um sem-teto nativo ganha a ribalta para si, o que é suficiente. O protagonismo é muito mais da situação – estrangeiros em degredo e brasileiros em condição de pobreza plena – do que desta ou daquela pessoa ou família. Claro que, com inteligência, Eliane nos deu Apolo (ou melhor Dumont) para ser um ponto de apoio, o “rosto amigo” entre anônimos.

Se o dispositivo é o da busca, e o ensejo é investigar, a montagem (feita por Marcio Hashimoto) precisa de atenção redobrada para que as idas e vindas e para que todo o vasculhar daquela “aldeia de cimento” tenham um sentido estético – e, por que não?, um calor político. Nesse ponto, o filme avança cinematograficamente em relação à bela contribuição de outros filmes brasileiros sobre o mesmo tema, como Dia de Festa (2006) e Estamos Juntos (2011), de Toni Venturi, e À Margem do Concreto (2005), de Evaldo Mocarzel. A recepção aqui foi traduzida em forma de discussão sobre o lugar dos refugiados no Brasil. E, em paralelo, houve muito riso, catártico, nas peripécias de Apolo, cantando “música de corno” e bebendo com os gringos.

Descrito aqui como um “poema da geopolítica”, Era o Hotel Cambridge se candidata à Eternidade de debates enquanto o expatriamento e o desterro forem temas do mundo e da Economia. Há um momento e outro de um didatismo exagerado (como na cena de Apolo lendo depoimentos racistas), e um ou outro clichês (como a situação da  jovem branca de classe média de paquera com um negro africano) mas nada que comprometa o vigor sensível e a relevância social desta produção com fôlego de trem-bala e com a retidão delicada de haical.

“Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos”: Nordeste pop

Entre os documentários em concurso este ano, chegou de Pernambuco um quarto concorrente, de alta voltagem experimental, para desafiar, pela sensorialidade, a trindade formada por Divinas Divas, de Leandra Leal, Curumim, de Marcos Prado (o que mais cotado ao troféu de direção de não-ficcão), e A Luta do Século, de Sérgio Machado: o musical Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos. Com direção de Sérgio Oliveira, o lugar vai às raias da fabulação em sua cartografia de um sertão em transformação, embalado por canções cosmopolitas que alimentam sonhos nos bailes de debutantes.

“MaMa”, de Julio Medem: o melhor estrangeiro pela oxigenação do melodrama

Domingo à tarde serão conhecidos os ganhadores da Première Brasil. Se houvesse um prêmio para o melhor filme estrangeiro do evento, o voto do P de Pop ficaria para o espanhol Ma Ma, de Julio Medem, por sua aula de melodrama concedida pelo visceral desempenho de Penélope Cruz como portadora de um câncer terminal às voltas com uma gravidez e com a reestruturação afetiva. Tem sessão dele amanhã, às 17h, no Reserva Cultural Niterói, e sábado, às 16h15m, no Odeon.

p.s.: O filme imperdível do dia, agendado para 17h, na Cinemateca do MAM, é Os Mendigos, dirigido pelo ator Flávio Migliaccio, com Ruy Guerra no elenco. A trama segue a educação sentimental e social de uma menina com um grupo de pedintes. Aliás, alguém deveria dar uma menção honrosa ao Festival do Rio e à curadoria do MAM (assinada por Ricardo Cota) pela retrospectiva Cinema Novo – Interseções – Cinema Marginal, que tirou do baú até Ternos Caçadores.