Entre secos e molhados, brilha a Blackyva, diva da Lapa

Entre secos e molhados, brilha a Blackyva, diva da Lapa

Rodrigo Fonseca

20 Abril 2017 | 09h56

Dos atabaques do terreiro de Mãe Janayna às pistas do Centro do Rio, Blackyva é hoje a nova diva (trans) da canção de protesto social

Dos atabaques do terreiro de Mãe Janayna às pistas do Centro do Rio, Blackyva é hoje a nova diva (trans) da canção de protesto social: show nesta quinta na Lapa, na Casa de Baco, de rap a Beyoncé

RODRIGO FONSECA
Inimiga pública nº 1 um quando o assunto é exclusão institucionalizada, um “esporte” geopolítico no qual sociedades de corte como o Rio de Janeiro são campeãs, Blackyva, coquetel vivo de cantora(a), atriz, trovadora e performer de perfil andrógino, alma trans e RG masculino (aka Will Lopes), periga hoje ser a mais corajosa expressão de cultura de resistência na cena musical (e teatral) carioca. Tem show (ou jira, nunca se sabe bem o que ela faz) desta aspirante a pombajira, formada no barracão de Mãe Janayna, em São Cristóvão, às 21h desta quinta-feira, no Espaço Cultural Casa de Baco (Rua da Lapa 243). O espetáculo ronda em torno da estética do funk made in RJ (Tati Quebra-Barraco, Cidinho e Doca) mesclado ao POP internacional (Beyoncé, Nicki Minaj) e a crítica pesada do RAP paulistano (Racional MC’s ), com direito a composições próprias aqui e acolá.  O bagulho, doido, é desse naipe:

“Blackyva é a junção das palavras BLACK e DIVA somadas a letra Y que representa a Geração da internet, da desconstrução e do Empoderamento”, explica a/o artista. “Meu trabalho em si, é falar sobre superação, é entender que algumas dores podem ser superadas, se sobre elas uma história puder ser contada. E eu conto a história de algumas pessoas com o auxílio de uma ferramenta chamada FUNK e de outra chamada TEATRO. Minhas referências vão desde Elza Soares a Tati Quebra Barraco. De Beyoncé a Shakespeare”.

Candomblé + poesia

Candomblé + poesia + inquietação política

Na noite da Lapa, o nome Blackyva é sinônimo de um terrorismo cultural paz e amor. Ela é a talibã dos debates raciais e LGBT, cuja bandeira tem outras cores que não as do arco-íris: sua pintura é a da crônica social da pobreza, expressa numa liturgia de funk, artes cênicas e candomblé anarcopunk.

“O teatro chegou pra me fazer perceber que eu faço parte de toda essa roda e que preciso me posicionar diante dela, com cautela e dialogo. E me mostrou que não era gritando, apontando o dedo pra acusar que eu ia me fazer compreensível. Ele me fez entender essa inquietação que eu tinha desde criança e até pouco tempo atrás, e não sabia dizer o que era. Eu não sabia me expressar, até porque eu não tinha o mínima conhecimento do que eu viria ser ou me tornar. Tinha só a certeza de que algo não estava coerente de acordo com aquilo que eu sentia”, diz Blackyva. “Até que tempo mais tarde, chega Blackyva que faz eu me tornar tudo aquilo que não me foi ensinado. Faz eu renegar o meu direito de ser um macho em potencial pra me tornar essa criatura controversa. De William, ‘menino’ agressivo, rude, intolerante, tímido, falho consigo e com os seus à Blackyva , persona PRETA, FAVELADA, TRANSPERIFÉRICA, ARTISTA, FUNKEIRA”.