Entrada de ‘Motorrad’ no Festival de Toronto demarca a força autoral de Vicente Amorim

Entrada de ‘Motorrad’ no Festival de Toronto demarca a força autoral de Vicente Amorim

Rodrigo Fonseca

17 Agosto 2017 | 11h28

Guilherme Prates é caçado por uma horda de motoqueiros em “Motorrad”, um filme nacional de gênero selecionado para a mostra principal de um dos mais estratégicos festivais de cinema do mundo, o Tiff, no Canadá

Rodrigo Fonseca
Encarado há cerca de dez anos como a mais importante vitrine mundial do cinema no que diz respeito a parâmetros de apreciação industrial, sendo tratado como um tipo de trampolim para o Oscar, o Festival Internacional de Toronto (TIFF) inclui na seção principal de sua seleção de 2017 (agendado de 7 de 17 de setembro) um filme nacional de gênero: Motorrad. A direção é assinada por Vicente Amorim, um realizador que, há uma década, filmou com Viggo Mortensen uma perturbadora alegoria sobre alienação nos tempos do nazismo: Um Homem Bom (Good). A inclusão deste projeto veio na sequência de uma vitória simbólica para nossa produção de tramas sintonizadas com um perfil mais pop: a conquista do Grande Prêmio do Júri do Festival de Locarno, na Suíça, para o terror As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, que sugere uma abordagem da licantropia (a conversão de pessoas em seres de feição animal, tipo lobisomens). Centrado em estranhos motoqueiros encourados em jaquetas pretas, à caça de uma turba de jovens, o longa-metragem de Amorim, um thriller com centelha de horror produzido por L. G. Tubaldini J.R. e André Skaf é a primeira produção da América Latina com esse perfil de tons sombrios (fora da escola sociológica política ou do melodrama social) a alcançar tamanho relevo no Tiff. Não é uma conquista só nossa, mas de todo o continente, e que ajuda a dar reconhecimento à assinatura autoral de Amorim, espécie de analista da inocência funcional em nosso cinema.

Desde sua estreia como realizador de longas de ficção, com o subestimado O Caminho das Nuvens (2003), Amorim se interessa por protagonistas cuja percepção é embotada por um olhar alienado (por vezes ideológico de mundo). Neste primeiro filme, Wagner Moura não olhava nada a seu redor, empenhado no objetivo de arrumar um emprego capaz de pagar a ele R$ 1 mil: mesmo que para chegar a esse trabalho ele precisasse arrastar a família inteira do Nordeste para o Rio, de bicicleta. Depois, no rosseauniano O Homem Bom, foi a vez de um professor de Literatura, especializado em Proust, que, em busca do tempo perdido da cultura europeia, não conseguia enxergar as cores mais sangrentas dos nazistas que rodeavam sua universidade e sua casa, sedentos por sua alma. Em Corações Sujos (2011), a crença de que o Eixo teria derrotado os Aliados na II Guerra, levava colonos japoneses no Brasil a se digladiar contra o Estado Novo (e suas sequelas) num banditismo étnico e social mediado pelo sonho de um Japão onipotente. E em Irmã Dulce (2014), havia a loucura do fervor e do altruísmo a qualquer custo como foco para uma (inflamável) discussão sobre o poder social da Igreja. É um oceano de personagens míopes, presos na Caverna de Platão. Mesma caverna que o diretor foi buscar nas rochas de Minas Gerais, ao filmar Motorrad e narrar a travessia de moças e moços alheios à maldade que nos acossa em situações onde o determinismo e a evolução das espécies força a escolha do mais forte.

No enredo de Motorrad, um grupo de motoqueiros é perseguido por psicopatas com motocas paramentadas para cantar pneu (e matar) que evocam até os Transformers… (ou seus algozes Decepticons). O ator Guilherme Prates é Hugo, um dos jovens que encaram uma trilha com amigos, novos conhecidos e algumas beldades, até ser caçado por uma gangue misteriosa. No elenco estão Carla Salle, Emilio Dantas, Juliana Lohmann, Pablo Sanábio, Rodrigo Vidigal e Alex Nader.

“O terror do Motorrad é o que nos assombra quando, ao amadurecemos, nos damos conta que sempre estaremos completamente sós com nossos próprios monstros”, diz Amorim, que dirigiu na TV a série Espinosa.

Toronto reconhece a potência autoral do carioca Vicente Amorim

Além dos atores, o projeto contava com uma trupe de dublês, espalhados por todos os cantos. Entre eles estava o mexicano Javier Lambert, que trabalhou em filmes de James Bond como 007 – Permissão para Matar (1989), com Thimoty Dalton, além de Tróia (2004), com Brad Pitt, e O Incrível Hulk (2008), com Edward Norton. Era preciso alguém com a experiência dele para dar conta da aventura.

Lapidado em locações mineiras, Motorrad foi rodado na Serra da Canastra, numa área rochosa à qual só se chegava de pick-ups 4 x4, por uma imposição da Natureza: por todo lado lá, há pedras tamanho GG e barrancos arenosos de árduo acesso. De uma das concentrações da produção, na cidade de Passos, até uma das locações centrais, era necessário encarar cerca 70 km de chão de terra, poeirento e irregular, para alcançar a equipe. Isso sem contar o fato de ser uma região de animais peçonhentos: com cascavéis e escorpiões pelo terreno, onde a qualquer vacilo, poder-se-ia haver um escorregão feio.

Tem dedo de um bamba dos quadrinhos brasileiros neste projeto de R$ 6 milhões, cujo enredo nasceu (literalmente) como um sonho do produtor L. G. Tubaldini J.R., também argumentista do projeto, antes conhecido pelo blockbuster O Concurso (2013) e pelo drama O Vendedor de Sonhos (2016). Quem concebeu os personagens foi Danilo Beyruth, o autor da HQ  Bando de Dois. Seu nome agrega um valor pop (nerd até certo ponto) a um projeto que preserva os traços autorais de um diretor dono de artesania elegante, preocupado com escombros existenciais que passam batido por nossa desatenção cotidiana mas ecoam pesado em nosso inconsciente.