Don Cheadle, de Homem de Ferro a Miles Davis

Don Cheadle, de Homem de Ferro a Miles Davis

Rodrigo Fonseca

31 Outubro 2016 | 14h28

Don Cheadle sopra seu metal como diretor e ator em

Don Cheadle sopra seu metal como diretor e ator em “Miles Ahead”

RODRIGO FONSECA
Num lampejo misturado a um plim-plim, a imagem de Don Cheadle no reclame da Tela Quente desta noite – tem Homem de Ferro 3, às 22h, nesta segunda – trouxe à tona a lembrança de um dos melhores filmes de 2016, quem tem o astro de House of Lies no posto de diretor e no de protagonista: Miles Ahead. Exibido lá em fevereiro no Festival de Berlim, ele acabou não vindo para a Mostra de São Paulo, que termina agora, no dia 2, nem para a maratona cinéfila do Rio. Também não há data de estreia divulgada para o longa-metragem no Brasil. Mas é preciso atenção à força dramática dele.

Mais contido de todos os atores de grande porte na ativa hoje nos EUA, capaz de racionalizar gestos simples, como um coçar de nuca ou um abrir portas, Cheadle se liberta de seu ferramental cartesiano na condição de diretor, fazendo de Miles Ahead algo anticerebral, numa experimentação de tempos e de planos de realidade.

Miles Ahead 7 Don Cheadle 7


A decisão de reconstituir a vida do trumpetista Miles Davis (1926-1991), um mito do jazz, não se dá a partir de uma estrutura de reminiscência totalizante, no qual toda a sua vida é passada em revista, nos moldes de uma cinebiografia padrão. Opta-se aqui por um recorte metonímico – e idealizado – no qual fatos são meros detalhes. Não se trata de um filme sobre Miles e sim de um filme com Miles, a partir do qual o diretor (também na condição de protagonista) presta não apenas um tributo ao jazzista, mas á tradição da blaxploitation como uma amplificação de gêneros, com base na negritude.

Cheadle constrói a trama com base num dos períodos mais controversos da carreira do instrumentista: uma fase da década de 1970 na qual ele se exilou dos palcos, compondo sem gravar, sob os efeitos de montanhas de cocaína. A chegada de um suposto jornalista (Ewan McGregor) mexe com sua inércia, engatando-o em um torvelinho de perseguições típico de thrillers de gângsters da Nova Hollywood, suado, sujo e sensual.

Embalado por música do começo ao fim, com direito a uma participação do pianista Herbie Hancock tocando com o próprio Cheadle ao trumpete, Miles Ahead usa suas melodias como uma espécie de tapeçaria do Tempo. A partir dela entendemos as fases do jazz e quanto elas espelham uma transformação social da música – sobretudo da música negra – com base nas transformações trazidas pelas lutas raciais. A rítimca do sorpo cria uma tensão crescente, bem alinhada ao filão policial. Há uma intriga de predestinação para o “herói torto” conforme o longa-metragem se abre para os perigos em que o jazzista se envolve depois que uma fita com algumas gravações inéditas é surrupiada de seu apartamento. A confusão começa quando ele recebe a visita do (quase) repórter da revista Rolling Stones  Dave Brill (McGregor) pedindo uma entrevista. Na conversa com ele e na luta para reaver seus originais, ele acaba se lembrando de sua relação com a dançarina Frances Taylor com quem foi casado de 1958 a 68. O papel ficou com a atriz Emayatzy Corinealdi, elogiada na Berlinale por seu desempenho e sua beleza. Nessas idas e vindas no tempo, o ator retrata Miles com uma caracterização mais polida e uma postura mais elegante.