‘Doidas e Santas’ flerta com o Real e afaga Nicete Bruno

‘Doidas e Santas’ flerta com o Real e afaga Nicete Bruno

Rodrigo Fonseca

22 Agosto 2017 | 19h37

Rodrigo Fonseca
Avesso à ditadura da redenção, apostando na lógica do “final feliz comigo mesmo” e não nas conciliações convencionais da love story, Doidas e Santas chega às telas nesta quinta-feira apostando num deslizamento bem-humorado do livro homônimo de Martha Mendonça da literatura à tela grande, valorizando o ethos de afirmação do feminino que marca a escritura da autora. Mas essa valorização, capaz de driblar parte significativa do lugar comum romântico, é operacionalizada a partir de procedimentos cinematográficos característicos da trajetória de Paulo Thiago pela direção, ao longo de seus quase 50 anos no ofício. É a estreia dele no terreno da comédia de costumes de timbre afetivo: isso explica certa gagueira que perpassa seu modo de conjugar a cartilha narrativa audiovisual, em engasgos aqui e acolá. Mas como vem de um histórico de diferentes gêneros, indo da crônica policial (Águia na Cabeça) a épicos rurais de unho intimista (caso do memorável Os Senhores da Terra), ele encara o universo à sua frente com liberdade para subverter expectativas, tendo em Maria Paula uma espécie de Julia Roberts da Zona Sul – ou do largo da Barra da Tijuca. O CEP não importa e sim o grau de carência (de si mesma) da mulher que escolheu como sua protagonista: Beatriz, uma psicóloga em busca de relembrar a própria grandeza, o prazer de sorrir.

A veterana Nicete Bruno vive uma viúva ‘prafrentex’ na versão do diretor Paulo Thiago para o livro “Doidas e Santas”, já vertido em peça

Para dar tônus a essa mulher, o diretor lança mão de artifícios de sua verve mais apurada – a de documentarista, testada no sucesso Coisa Mais Linda e no itabirano Poeta de Sete Faces – a fim de observar como ela se exercita (e joga) em relação ao Real à sua volta. Uma câmera observadora, seca, abre mão das cores almodovarianas de sua direção de arte e aposta – numa comunhão de olhares com o fotógrafo Antonio Luiz Mendes – no registro de ambientes pelos quais Beatriz passa levada por incidentes, por acasos ou viradas de roteiro, como, por exemplo, uma roda de samba na Mangueira ou num estádio em Buenos Aires. Percebemos gente ou gentes, com o “s” que sintetiza a pluralidade de um mundo de carne, osso, suor e maquiagens borradas. Ali, este protótipo de comédia à italiana, com ecos de Vittorio De Sica Matrimônio à Italiana na veia) e do Dino Risi de Pobres Porém Formosas (1957) – mais interessante como projeto e como devir do que como filme acabado, pelo empenho de chutar pra escanteio as normatizações das histórias de amor -, dá um passo firme na corda bamba da incerteza e do risco e se faz valer – faz de si mesmo algo vivo. Essa embocadura documental, que vai e vem em momentos estratégicos, é galvanizada pela maneira como Paulo Thiago dirige seu maior trunfo: Nicete Bruno. Ela está em cena menos como personagem e mais como mito: uma das mais experientes atrizes do país, ela carrega um peso totêmico de sabedoria que perfuma com o Channel nº 5 da vivência a figura da mãe viúva de Beatriz. Maluca beleza em seu afã nietzschiano de postergar as castrações da idade avançada em prol do sabor de viver bem, Elda (Nicete) é a variável que vem desestabilizar a equação matemática na qual sua filha escolheu viver. E raro ver Nicete no cinema. Mas quando ela aparece – como vimos no recente A Casa das Horas, de Heraldo Cavalcanti, e agora no novo longa do realizador de Jorge, Um Brasileiro (1988) -, sua habilidade de nos desconjuntar se exercita cheia de som, de fúria. E, nesse caso, também de cheia de doçura.