‘Dogman’ morde a jugular de Cannes

‘Dogman’ morde a jugular de Cannes

Rodrigo Fonseca

17 Maio 2018 | 05h58

Rodrigo Fonseca

Laureado duas vezes em Cannes com o Grande Prêmio do Júri, a honraria mais disputada depois da Palma dourada, dada a ele por “Reality” e “Gomorra”, o romano Matteo Garrone pode mudar o prognóstico dos resultados da Croisette deste ano com uma espécie de western sobre cães, na sua característica animal mais notável: a fidelidade. Curto, grosso (com cenas de violência a granel) e implacável com clichês sociais ao radiografar a periferia, “Dogman” é um conto moral, sem ambições épicas e sem projetos de renovação de linguagem – coisa incomum aos diretores da Itália. É da simplicidade e da atuação implosiva de Marcello Fonte que vem sua força.

Sem ostenta toda a errática vontade de potência de seus longas-metragens anteriores, Garrone aqui tira o máximo do mínimo, usando seu olhar de esteta num ambiente de aspereza financeira e afetiva. Num bairro beeeeem pobre, um devotado tratador de cachorros, Marcello (um papel que deve – e merece – dar a Fonte o Prêmio de Melhor Interpretação Masculina) vive uma tensa relação de medo, lealdade e subserviência com um amigo bandido, Simoncino (Edoardo Pesce). Pequenino e de coração mole, Marcello é covarde; já Simoncino, um homenzarrão viciado em cocaína, impõe sua vontade pelos punhos. Mas o que leva Marcello a fazer o que ele quer é uma disposição quase inata deste dono de pet shop para ser fiel aos companheiros.

Uma hora, em meio a uma febril narrativa, onde cada minuto planta um perigo, como se via em westerns como “Matar ou Morrer”, o limite da confiança é rompido pelas ações drogaditas de Simoncino. Aí, bicho… aí vira uma história de vingança, daquelas de se segurar nas cadeiras, por manter as mãos dadas a um realismo quase documental. Sua percepção é de que homens e cães estão confiados a uma mesma coleira, que, entre humanos, é chamada de honra. Uma coleira que, vez por outra, arrebenta.