.Doc de Vladimir Carvalho é destaque em expo no CCBB

.Doc de Vladimir Carvalho é destaque em expo no CCBB

Rodrigo Fonseca

01 Agosto 2017 | 13h20

Cícero Dias encontra Picasso em suas andanças pela França: esta é uma das histórias narradas pelo documentário de Vladimir Carvalho, com sessão nesta quarta no CCBB-RJ

Rodrigo Fonseca
Laureado com os prêmios de melhor direção e melhor roteiro na disputa pelo Troféu da Câmara Legislativa do Festival de Brasília de 2016, o metafísico Cícero Dias, o Compadre de Picasso, no qual Vladimir Carvalho faz uma análise histórica e estética do artista plástico pernambucano, será exibido nesta quarta, às 17h30, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ), na abertura da expo Um Percurso Poético: 1907-2003. Organizada sob a curadoria de Denise Mattar, a seleção dos quadros do pintor fica no local de 2 de agosto a 25 de setembro. Ao flertar com as cores de Cícero, o octogenário diretor paraibano, reconhecido como um poeta da investigação – com uma obra mais calcada na força da palavra, expressa por meio de entrevistas, arquivos e pesquisas – produz sua narrativa mais potente em décadas. Ele surpreende as plateias ao passar para um outro e mais elevado (e enlevado) patamar: o de poeta da imagem.

Desde o mítico O País de São Saruê (1971), Carvalho não construía um discurso visual tão requintado, seja no arranjo da montagem, seja (sobretudo) no âmbito dos enquadramentos. Talvez a matéria-prima mais indireta do longa – a pintura de Cícero – tenha inspirado um arranjo narrativo de maior potência em termos de dramaturgia de plano do que o material visto nos docs anteriores dele, como O Engenho de Zé Lins (2006) e Rock Brasília (2011), no qual a musculatura investigativa chamava mais atenção do que sua epiderme fotográfica.

Filme descortina a arte moderna no Brasil

Aqui, vemos uma estrutura cíclica, na qual o porto de partida e o de chegada é o mesmo: uma lápide em Paris onde se lê “Eu vi o mundo… ele começava do Recife”. Dali pra frente, Vladimir exuma o corpo ali enterrado, mais preocupado em fazer uma história afetiva do Modernismo – e suas vertentes distintas – no mundo do que em formatar uma cinebiografia clássica. Entre arquivos e depoimentos, numa colcha de memórias, a câmera se abre e se fecha em túneis do Rio Sena, no colorido de telas, no branco de recordações em processo de despedaçamento. Sobram, intactos, a jornada de criação de um intelectual das tensões brasileiras e um périplo sobre as linguagens modernas alinhavadas no esperanto de uma pincelada.