‘Django’ embala a Mostra de SP em acordes ciganos

‘Django’ embala a Mostra de SP em acordes ciganos

Rodrigo Fonseca

25 Outubro 2017 | 10h05

Reda Kateb vive Django Reinhardt nesta cinebiografia do jazzista de origem cigana que encarou o jugo nazista

Rodrigo Fonseca
Embalado nos acordes da excelência narrativa, numa linhagem de storytelling clássico, o drama musical Django, abriu o 67º Festival de Berlim, pede passagem no Brasil nesta quarta-feira, em projeção na Mostra de São Paulo, vitaminando a estética dos biopics a partir das memórias de m mito do jazz. Django Reinhardt (1910-1953) é o tema deste thriller sonoro sobre perseveranças, com projeção esta tarde, às 14h, no Reserva Cultural. A guitarra de seu protagonista é um meio de anestesiar a plateia dos horrores de uma visita à Segunda Guerra Mundial, sem que esse efeito entorpecente dilua a potência reflexiva da trama. E, em seu processo de revisão da História, o filme promove a conversão de um ator argelino fora de todas as convenções de beleza – e mesmo de simpatia – num astro: Reda Kateb. O carisma torto dele ajudou o longa a estrear na França com uma bilheteria de 185 mil ingressos vendidos. Em menos de um mês, ele arranhou a marca de 400 mil pagantes.

Conhecido por participações como coadjuvante (quase sempre na pele de um bandido ou figura hostil) e por juntar forças a Viggo Mortensen no drama de guerra Longe dos Homens (2014), Reda alcançou uma nova dimensão em sua carreira – e no gosto da imprensa internacional – após sua contagiante atuação aqui, como o guitarrista franco-belga de raízes ciganas. Ele revive o período em que Django Reinhardt foi acossado pelos nazistas neste longa-metragem que marca a estreia na direção do prolífico produtor francês Etienne Comar (de Timbuktu).

Considerado um revolucionário entre os jazzistas da primeira metade do século XX, em seus 25 anos de carreira, Reinhardt teve suas músicas usadas em numerosos filmes, tendo servido ainda de inspiração para o filme Poucas e Boas (1999), de Woody Allen, no qual Sean Penn vive um rival dele. No recorte feito por Comar, centrado na França ocupada dos anos 1940, Reinhardt é forçado por oficiais de Hitler a tocar para oficiais nazistas, tendo que adaptar seu estilo às exigências arianas: nenhuma referência à cultura musical jazzística negra poderia ser feita. Apático inicialmente, ele começa a buscar formas de reagir à opressão, em especial ao descobrir os expurgos do povo cigano. O desempenho de Reda é irretocável. O mesmo se pode dizer do trabalho de montagem e do desenho de som.

 

Às 22h desta quarta, no Espaço Itaú Frei Caneca, a Mostra recebe uma surpresa no terreno da animação: o desenho chinês Tenha um Bom Dia, de Liu Jian. Ensaio sobre a malandragem, este desenho animado chinês, batizado de Have a Nice Day mundialmente (Hao Ji Le é seu título original) foi um dos destaques da competição pelo Urso de Ouro de Berlim em 2017, onde gerou quilos de gargalhadas. Parece uma espécie de Onde os Fracos Não Têm Vez no Sul da China, com a malícia e o niilismo político dos irmãos Coen. Mas o nome que este pintor e animador conhecido pelo filme Piercing I (2010) mais ouviu em seu encontro com a imprensa foi Quentin Tarantino. A referência ao diretor de Pulp Fiction (1994) vem da aposta na cultura pop na criação de seus personagens marginais, a começar por um matador de aluguel fã de Rocky Balboa.