‘Divórcio’ faz rir e refletir ao retratar o Brasil ‘country’

‘Divórcio’ faz rir e refletir ao retratar o Brasil ‘country’

Rodrigo Fonseca

13 Setembro 2017 | 15h01

Levada da breca, Noeli (Camila Morgado) vai às forras contra seu marido, Julio (Murilo Benício), em “Divórcio”: estreia dia 21 de setembro

Rodrigo Fonseca
Garantia de risadas de desopilar o fígado, imunes à praga do “perco a inteligência, mas não perco a piada”, Divórcio vai muito além da eficiência, na maneira como o diretor Pedro Amorim opera com as cartilhas da comédia: a romântica e a de ação. Apoiado na esgrima entre dois samurais da arte de atuar (Camila Morgado e Murilo Benício), este Família Buscapé com fragrância de Howard Hawks se impõe na tela por ser um (necessário) exercício de antropologia na observação de uma parcela da sociedade invisível em nosso cinema. Seu objeto de análise (com um inabalável bom humor) é a classe C e D high society do Brasil rural, ou seja, os emergentes do interior, o nouveau riche da roça. E eles entram em cena sem resvalar na caricatura ou na tipificação, a partir do colorido (emocional) que seus atores trazem à caracterização. Ao assumir esse contingente como foco, buscando sua amostragem nos arredores de Ribeirão Preto, o novo longa-metragem da grife de produção L.G. Tubaldini Jr. e André Skaf faz avançar a lógica (e o ethos) da chamada neochanchada.

Esse é o termo usado para a vertente da gargalhada (revelada de Se Eu Fosse Você para cá) responsável por fazer a cartografia dos atores sociais que ascenderam na pirâmide do consumo na Era Lula e na Era Dilma. Foi assim em De Pernas Pro Ar (2010), em Até Que a Sorte Nos Separe (2012) e toda a leva de filmes no qual a emergência ilustra o cógito cartesiano do Brasil em tempos de PT: “compro logo existo”. O diferencial nesta agridoce produção dirigida por Amorim é o ambiente, o fenótipo: estamos num Brasil mais interiorano, country. E o que se extrai de mais rico do roteiro, assinado por Paulo Cursino e Angélica Lopes, é a alteridade, a estranheza, a valorização não exótica do que não é o standard urbano.

Foi esse mundo que inaugurou a tradição do humor gráfico brasileiro nos quadrinhos, com Zé Caipora e Nhô Quim, de Angelo Agostini. É um recorte que não está na filmografia Mazzaropi, nem na literatura de Antonio Cândido (vide Parceiros do Rio Bonito, livro seminal para o estudo da cultura rural). É um olhar sobre o universo rural de gravata: mas gravata borboleta, daquelas que saem do prumo em shows de Maiara e Maraisa ou nos acordes das Evidências de Chitãozinho e Xororó. E esse mundo se descortina em camadas de afetos (isento do pejorativo rótulo da breguice) em Divórcio, que estreia dia 21 de setembro.


Centrado no confronto entre o Rei e a Rainha do Tomate, cujo relacionamento azedou após anos algemado aos ditames da riqueza, Divórcio está menos para A Guerra dos Roses (1989) e mais para Divórcio à Americana (1967), de Bud Yorkin: há muito de Dick Van Dyke em Murilo Benício (e seu Júlio) e um chame de Debbie Reynolds em Camila (e sua Noeli). É uma screwball comedy (derivado típico dos tempos de crise, por jogar com o inusitado e com a mistura de registros) à moda antiga, que carrega nos erres no “porrrrrrta” ou “porrrrteira” típicos da região onde se ambienta, mas investe em arquétipos mais universais. Essa medida fica mais clara na hilária sequência da boate, regada a música sertaneja, sobretudo pela forma como “a” coadjuvante, Sofia, vivida por Luciana Paes (uma Goldie Hawn brasileira, em esperteza, beleza e pimenta), galvaniza as carências dos protagonistas.  

Há no personagem do ricaço em decadência vivido por Benício um quê de Arthur Fortuna, o herói cômico vivido por ele na novela Pé na Jaca (2006-2007), só que com outros cacos. Não vemos nele ou em Camila repetecos de papéis anteriores ou de fórmulas gastas: vê-se, antes disso, um esforço em ver (e entender) quem são os “novos ricos” da countryside brasileira. E isso se dá com refinamento visual graças à fotografia de Hélcio Alemão Nagamine, que encapa a comédia com o plástico bolha da surpresa, da etnografia. E a sequência de Camila às voltas com uma coruja é antológica.