Disney com abobrinha

Disney com abobrinha

Rodrigo Fonseca

30 Janeiro 2016 | 14h38

Produção de US$ 150 milhões,

Produção de US$ 150 milhões, “Ratatouille” é uma aventura culinária da Pixar, com sessão esta noite no Telecine Fun

Tratado hoje como iguaria das mais finas, um ratatouille típico junta ingredientes que costumam arrancar um enjoado “Bleeeeerg!!” de qualquer criança. Tome nota:  berinjelas, abobrinha, pimentão vermelho… e por aí vai. Mas essa guloseima acabou sendo popularizado na cultura pop graças ao longa-metragem de animação que fez multidões salivarem em 2007: Ratatoille, que o canal Telecine Fun exibe neste sábado (30/1), às 18h. O oscarizado longa-metragem da dobradinha Disney/Pixar foi batizado em referência ao tal manjar dos deuses parisienses. E também a um ratinho serelepe cuja ambição maior é se tornar um cozinheiro. Na telona, sob a concepção gráfica fina de Susan Bradley e a direção de arte de Belinda van Valkenburg, o tradicional prato da cuisine fraçaise ganha um visual de fazer salivar o mais seletivo dos paladares. Até guris que chiam diante um prato de um inofensivo prato de arroz de brócolis e encaram uma tigela de jiló como se fosse o Darth Vader da alimentação terão vontade de experimentar o tal ratatouille. Em parte, isso vem do esforço do animador Brad Bird (Os Incríveis), que assumiu a direção do filme às pressas, de sensorializar cada centímetro da Paris recriada por ele em polígonos digitais. Nessa recriação, mais do que oferecer um… banquete aos olhos, ele faz avançar a maneira de se animar a partir das ferramentas do 3D.

Com uma bilheteria global de US$ 623,7 milhões, Ratatouille, o filme, é o ângulo de 90° na trajetória da Pixar em busca da consolidação de uma gramática narrativa (e plástica) própria. Desde Toy Story (1995), um marco histórico para o cinema em sua relação com a computação gráfica, a produtora vem estabelecendo uma pesquisa de linguagem que varia da timidez (Procurando Nemo, Vida de Inseto) ao risco (Carros), com derrapadas no horror (vide a excrescência sexista Valente). Com as aventuras de Remy, o camundongo mestre-cuca (dublado com perfeição na versão brasileira por Philippe Maia), essa pesquisa alcança o plan(alt)o da elegância, sem que esta sacrifique uma aura de inocência que parecia perdida a partir dos arrotos dos Shreks da concorrência. Brad Bird trata um universo distante dos olhos infantis – a cozinha – com a mesma mirada de espanto que um menino teria ao adentrar os bastidores de um grande restaurante. Tudo que se passa no lado de lá das mesas onde clientes famintos sorvem sopas quentes é retratado com um tratamento de cor acentuado, e uma lapidação quase parnasiana de detalhes.

Um olhar animado sobre Paris

Um olhar animado sobre Paris

Cada taça, cada talher, cada bandeja trazem um brilho de novidade. Nas dispensas onde Remy cata cebolinhas, salsa e coentro, cada alimento é ressaltado com esmero gráfico, para sensibilizar a percepção do público, atiçando-lhe a fome por invenções animadas. A cada plano, Bird apresenta uma nova forma de utilização dos recursos do 3D. Quando Remy sai às ruas, Paris também explode em luzes simetricamente desenhadas para tornar a cidade ainda mais atraente do que é. O que torna o filme tão provocante é essa maneira de não deixar nenhuma potencialidade plástica na cenografia quieta, obrigando as púpilas do espectador a percorrer uma maratona cromática. Para além das alegrias formais, há uma discussão sobre o papel do artista. Remy precisa cortar o cordão umbilical que o prende a seu passado para alcançar um futuro de glórias. O mesmo movimento é exigido do crítico Anton Ego (cuja voz, nos EUA, é a de Peter O’Toole, e, no Brasil, a do veteraníssimo Lauro Fabiano, ás da dublagem), que tem que confrontar suas convicções pretéritas para valorizar um novo sabor. Aliás, raras vezes os críticos receberam um retrato tão denso no cinema quanto em Ratatouille, cuja visão para a classe busca uma humanidade que ela, muitas vezes, tem vergonha de assumir.

* Este texto é uma nova versão do original publicado em 2008 no catálogo da mostra Os Melhores Filmes do Ano da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACC-RJ) promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ).

 

p.s.: Xodó dos cinéfilos afeitos a adrenalina (e cinemática), Mad Max: Estrada da Fúria conquistou neste sábado o prêmio da Associação de Montadores dos EUA.

“A Grande Aposta” é uma aula de roteiro

p.s.2: Favorito (com todos os méritos) ao Oscar de melhor ator coadjuvante por Creed: Nascido para Lutar, Stallone foi injustamente ignorado na premiação do Screen Actors Guild (SAG), o sindicato de atores dos EUA, cujo resultado será divulgado esta noite, para dar novos rumos à disputa pelo Oscar 2016. Depois do resultado do Producers Guild of America (PGA), o favorito passou a ser a (brilhante) comédia A Grande Aposta, de Adam McKay. Há quem aposte alto também em O Regresso, de Ajelandro González Iñarritu, que desponta como o campeão de bilheteria da vez nos EUA. Estima-se que o vencedor hoje seja o pavoroso Spotlight – Segredos Revelados e que Sly perca para Mark Rylance por Pontes dos Espiões, um dos filmes mais fracos da carreira de Steven Spielberg.

p.s.3: Falando em Stallone, em 2014 ele participou como coadjuvante de um drama de qualidade que segue inédito até hoje no Brasil: Lute por sua Vida (Reach Me), de John Herzfeld. Tava na hora de alguém exibir.