Disfarçado de documentário, o poema ‘Pitanga’ é mais uma evolução de Beto Brant

Disfarçado de documentário, o poema ‘Pitanga’ é mais uma evolução de Beto Brant

Rodrigo Fonseca

16 Outubro 2016 | 12h44

“Pitanga”: investigação sobre as andanças do corpo que desenhou brasilidade no Cinema Novo

RODRIGO FONSECA
Poucos momentos do Festival do Rio 2016 são capazes de superar o gozo coletivo que foi a conversa entre Maria Bethânia e Antônio Pitanga numa das muitas sequências de reencontro do novo filme de Beto Brant, agora filmando em parceria com a atriz Camila Pitanga, filha do objeto de estudo do .doc que encerrou a leva nacional do ano na maratona. Talvez só o papo entre ele e Neville d’Almeida tenha sido tão selvagem… e isso, no mesmo longa-metragem, Pitanga, exercício poético de difícil rotulação, que se fantasia de documentário, embora comece como jira de malandro, e, ao longo de 110 minutos se imponha na tela grande (e no sábado, na estreia, ele teve a melhor de todas, a do Odeon) como uma revisão crítica do cinema brasileiro. Não se trata de um filme sobre Pitanga (o ator, o político, o Don Juan) e sim de um filme com Pitanga, uma quase-ficção ou poema-processo da mesma ordem, cuja Estrela de Belém é a saudade. Tem muita coisa do passado ali, mas sem melancolia: o ontem é como hoje aos olhos de um homem que se exercita na vida em travessia, com “medo de virar preto velho”, como anuncia no começo, buscando entre os vivos sua Aruanda provisória.

Tem mais dele neste domingo, às 21h15m, no Reserva Cultural Niterói. E outra dose dessa cachaça na quarta, às 16h, no Ponto Cine. Estrear, só em abril. Mas, falta pouco. E vale a espera, pois ele revela um bocado sobre nós e sobre seus realizadores.

Existem duas fases bem distintas na obra cinematográfica de Beto Brant, sendo que nenhuma delas dá as cartas em Pitanga e não apenas por sua generosidade em trocar com Camila. Há nele, assim como no orixá Pitanga, uma vetorial movimentação de seguir em frente. Esses dois Brants são hemisférios bem distintos de um mesmo corpo criativo. De um lado há o Beto Brant cientista social que se debruça sobre a violência, ciente de que feridas secam, mas cicatrizes ficam: assim expressa o périplo feito em Os Matadores (1997), Ação Entre Amigos (1998) e O Invasor (2001). Depois, com Crime Delicado (2005), demarca-se um tráfego dele para uma vertente mais existencial, num fluxo contínuo de observação da prática artística, como uma forma de expressão e de transgressão. Em Crime… era o teatro; no soberbo Cão Sem Dono (2007), a Tradução; no esquecido O Amor Segundo B. Schianberg, artes plásticas e a arte da performance. Aí veio, Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios (2011), um potente híbrido dessa sua segunda fase com um devir do desejo, que se expressa menos por bases narrativas e mais por um certo ritualismo. Pitanga é fruto de vir-a-ser simbólico.


Há também duas Camilas, quando nos debruçamos sobre La Pitanga. Tem de um lado a estrela que se formou pelo carisma e pelo empenho na afirmação da negritude e na busca por experimentar as diferentes humanidades que a representação feminina na TV e no cinemão oferecem. E tem, do outro lado, aquele bicho que saiu da jaula, pelas mãos do Brant, em Eu Receberia… e que, de lá para cá, alimentou heroínas sociais, de pulso e requebrado, alternando Tchekhov com Luiz Fernando Carvalho.

Da soma dessas duas evoluções, nasceu um filme de emotividades e de risos, no qual vemos sob múltiplas perspectivas um corpo que ajudou o Cinema Novo a encontrar uma cara 100% brasileira, mas que não parou por lá. Talvez a maior provocação do filme de Brant e de Camila seja a percepção de que atores como Pitanga deveriam estar atuando mais. Fica a dica.

p.s.: Para quem passou as últimas duas semanas da vida enfurnado no Roxy, o velho cinema de Copacabana mostrou-se uma casa generosa e acolhedora para a Première Brasil, sem pedantices. Que o evento continue por lá.

p.s.2: A lista dos melhores filmes descobertos pelo P de Pop do Festival do Rio 2016, na ordem de paixão:

“Ma Ma”: o achado deste festival

Ma Ma, de Julio Medem;

Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan;

Você e os Seus, de Hong Sang-soo;

Redemoinho, de José Luiz Villamarim;

O Cidadão Ilustre, de Gastón Duprat e Mariano Cohn;

Eis os Delírios do Mundo Conectado, de Werner Herzog;

Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga;

Cosmos, de Andrej Zulawski;

Noite Sem Fim, de Isabel Coixet;

A Mulher Que Se Foi, de Lav Diaz.

 E fora disso aí, dos filmes vistos fora, chegam nas cabeças Toni Erdmann, de Maren Ade; De Palma, de Noah Baumbach e Jake Paltrow; As Confissões, de Roberto Ando; É Apenas o Fim do Mundo, de Xavier Dolan; e Eu, Daniel Blake, de Ken Loach.