Del Toro e a celebração da fantasia

Del Toro e a celebração da fantasia

Rodrigo Fonseca

05 Março 2018 | 14h59

Com orçamento estimado em US$ 20 milhões, “A Forma da Água” ganhou o Oscar de melhor filme e diretor

Rodrigo Fonseca
Ao fim da cerimônia de entrega do Oscar, na noite do domingo, o P de Pop produziu um desabafo que dizia:

“Sabatini dizia que ‘nos momentos em que o mundo se mostra louco, o herói é aquele que mantém o senso de humor’. A Forma da Água é bem-humorado, porém sua dimensão fabular fala mais alto do que seu potencial cômico. É um ensaio sobre o lugar essencial do ‘Era Uma Vez…’ em tempos de colapso moral. E faz essa ode à Carochinha em forma de história de amor. Pode existir algo mais transgressor?
Sua vitória no Oscar 2018 (Melhor Filme) é a vitória da fabulação em dias de saturação do Real e de hibridismo documental”.

Orçado em US$ 19,4 milhões, The Shape of Water conseguiu, com seu formato “filme de monstro” arrecadar US$ 126 milhões com sua investigação sobre o lugar da fábula como bunker de resistência para os esvaziamentos simbólicos e o sucateamento da moral. Desde que conquistou o Leão de Ouro de Veneza, em setembro, esta mistura de Splash – Uma Sereia em Minha Vida com Faça a Coisa Certa vem funcionando como uma carta de intenções da fantasia, preservando o sagrado direito da invenção de desafiar as castrações do realismo. O sucesso de Guillermo Del Toro é uma reação ao esgotamento que já se faz sentir nas narrativas documentais – cada vez mais perto do hibridismo entre fato e ficção. O boom do documentário é um binômio da espetacularização da notícia a partir das coberturas de guerra da CNN no Iraque com a midiatização da Morte no 11 de Setembro. Dali surgiu o modismo do reality show e toda uma escola de documentaristas pop (Michael Moore, por exemplo). Mas aquela euforia do Real começou a se saturar, salivando por metafísica. Eis que Del Toro, com todo o seu cabedal de folclorista mexicano, lança-se como uma possível solução para nossas carências de representação. E o prestígio dele potencializa a América Latina nas telonas, via México. Por sorte, dele e nossa, o Chile também despontou na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com os elementos fora da norma de Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lélio, e sua heroína trans, Daniela Vega. O êxito desses longas coroa a invenção e o escapismo, sem abrir mão, nunca, da denúncia.