‘De Canção em Canção’ põe divindade no Ser Humano

‘De Canção em Canção’ põe divindade no Ser Humano

Rodrigo Fonseca

17 Julho 2017 | 15h01

RODRIGO FONSECA
No trecho mais tocante do experimento sensorial chamado De Canção em Canção, o novo filme de Terrence Frederick Malick, previsto para estrear no Brasil nesta quinta, a fim de promover uma hemodiálise visual em nossas retinas, dois amigos unidos pela música – Ryan Gosling e Michael Fassbender – saltam como símios, entre caras e bocas animalizadas, a brincar um com o outro como crianças. Eles dialogam muita coisa um com o outro, às vezes no amor, às vezes no ódio. Mas não se preocupe com as falas, pois Malick vai cortá-las, ignorando solenemente o que eles falam em prol de um texto em off, que calça Song to Song (título original) como uma grande tapeçaria emotivas, que serve de chão (e também de bússola) a uma das mais virulentas (e vivas) narrativas do cineasta. Virulenta por ser telúrica, menos espiritualizada do que em seus longas mais recentes, carregada de órgãos, de impurezas. É um Malick mais gente e menos alma, sempre metafísico, porém menos messiânico, numa evolução de cunho antropocêntrico de si mesmo, apoiado em um elenco em timbres de esplendor.

Há uma reflexão recente sobre o cineasta, que antecedeu a exibição do doído De Canção em Canção  no Festival SXSW, em Austin no Texas (onde a trama se passa), em março, publicada no livro Terrence Malick – Rehearsing the Unexpected (Ed. Faber & Faber), na qual os organizadores Daniele Villa e Carlo Hintermann apontam uma gradual mutação no olhar dele a partir de O Cavaleiro de Copas (2015). Segundo eles, o “obsessivo interesse de Malick pela família e pelas relações de confiança afasta seu cinema do Mistério”. O “Mistério” se refere à dimensão cósmica quase teológica de seus filmes dos anos 2010, alimentada, em parte, pelo folclore em torno da postura reclusa, reticente a holofotes, dele. Postura que caiu por terra este ano, quando ele apareceu na abertura do SXSW, para promover seu novo e belo longa-metragem.

Rooney Mara e Ryan Gosling integram um dos triângulos amorosos desta experiência sensorial de Terrence Malick

É uma história sobre lealdade (acima de tudo), desenhada a partir de uma ciranda de reflexões onde se fala menos da Natureza (fetiche maior do diretor) e mais do Homem (enquanto instituição), tendo a indústria da música como eixo de dois triângulos amorosos que vão estabelecendo uma relação especular e esfacelando a convivência harmoniosa entre seus membros. Além de Gosling e Fassbender, De Canção em Canção tem ainda Rroney Mara, Natalie Portman, Iggy Pop, Holly Hunter e Cate Blanchett em cena. Não faltam famosos ao redor do diretor, sempre cercado de sigilo. Ao longo de 48 anos de carreira, no qual finalizou dez filmes (há um 11º, Radegund, em produção, previsto para o Festival de Veneza), o ganhador da Palma de Ouro de 2011 (com A Árvore da Vida) foi visto raríssimas vezes em público, recusando ser fotografado ou entrevistado. Um dos únicos jornalistas que romperam seu claustro foi o francês Michel Ciment, que falou com ele no início dos anos 1970, logo após a estreia de Terra de Ninguém (1973), quando o então jovem cineasta falou de sua paixão por George Stevens e Elia Kazan. Falou ainda que era fiel a um credo: os filmes falam por si, sem a necessidade de que a vaidade de seus realizadores ultrapasse as dimensões da tela. Há ainda um segundo credo nessa cabeça fervilhante, que repetidamente usa a metáfora do Éden como signo da decadência humana: o transcendentalismo.

Dessa opção dita “carola” do cineasta nasceu um desdém em relação a Malick, que atropelou seu belíssimo filme seguinte: Amor Pleno (2012), com Ben Affleck. O que deve ficar claro é a dimensão filosófica por baixo desse perfil clerical atribuído ao cineasta, que aprendeu com Stevens a desenhar planos contemplativos do ambiente à sua volta. Para Stevens, a câmera precisa passear, pois, só assim, ela pode revelar o quanto as forças da natureza (tipo o petróleo a jorrar em Assim Caminha a Humanidade) é maior do que os seres humanos que a povoam.

Michael Fassbender é um empresário do ramo da música em Austin

Dele, Malick herdou o instinto de fazer com que a câmera trafegue pelo Espaço alheia às demandas do tempo capitalista, devota ao Tempo mítico, onisciente e onipotente, a fim de poder flagrar nos mais simples gestos humanos a expressão dos impasses afetivos mais inauditos. É o que acontece em De Canção em Canção, no choque entre as formas de amar entre seus personagens e na sensação de decepção entre os amigos vividos por Gosling e Fassbender.

E nesse filme, o ideal transcendental – que Malick aprendeu lendo Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau – escorre pelos planos do doído De Canção em Canção a partir da sensação de vazio que emparelha seus protagonistas num quadrilátero de desencaixes e desconexões. É um filme a ser fruído pela força da beleza que nos cerca – a mesma que conspurcamos como nossas mesquinharias. Existe em Malick uma dramaturgia em tom de homilia diferente de tudo o que vimos e vemos. É dura de ser fruída, exige disciplina e pensamento, mas deixa como saldo uma revisão crítica de nossas lacunas existenciais mais profundas. E não há ninguém fazendo o que ele faz.

COTAÇÃO: Excelente

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