Corações Satânicos ao Alto: Toni Venturi destila ironia

Corações Satânicos ao Alto: Toni Venturi destila ironia

Rodrigo Fonseca

18 Outubro 2017 | 12h24

Murilo Rosa morde a maçã da vilania em “A Comédia Divina”: ironia na reflexão sobre a mídia e sua conexão com a Fé

Rodrigo Fonseca
Vitaminado por diálogos provocativos que saltam aqui e acolá e por uma afrodisíaca participação de Juliana Alves como um súcubo danadinho, A Comédia Divina marca pênaltis a favor da inteligência na decisão, por saldo de gols, da partida em torno da representação da mídia nos jogos de poder. Bamba nos gramados do real, seja no .doc (O Velho – A História de Luiz Carlos Prestes) seja no drama social (caso do profilático Estamos Juntos), Toni Venturi pisa aqui no campo da Comédia encarando sua cartilha não como adversária mas como um espaço a explorar o Fla x Flu entre a fé a liberdade plena… sobretudo a de pensar. Por isso, essa sua partida contra a letargia do humor dá a ele um placar favorável na seleção brasileira de diretores que contestam convenções morais da sociedade. O que Venturi faz nesta produção, que estreia nesta quinta, após uma passagem pelo Festival do Rio 2017, é discutir a fronteira entra os verbos “crer” e “ser livre” na zaga da prática midiática, investigando o papel da TV na aceitação diária de práticas religiosas que, nem sempre, primam pela caridade. Sua fonte aqui é o conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis.

Tentação da carne: Raquel (Monica Iozzi) desfia o rosário da cobiça

Seu atacante nesse jogo é Satanás, defendido com todo o carisma que Murilo Rosa tem e todas as fragilidades humanas que ele sabe traduzir entre risadas gordurosas de júbilo diante da pequenez humana. Cansado de ser menos assustador do que as atrocidades dos mortais, ele vai encarar o Criador – aqui na forma de uma mulher negra, no caso uma das mais mitológicas atrizes de nosso cinema: Zezé Motta – ao decidir seguir o papel de evangelizador, fundando uma seita. Gritos de “Quem quer dinheiro” funcionam – para qualquer bom entendedor – como uma dedada no orifício televisivo de nosso imaginário pop. De quebra, ainda tem a hilária elegia da gula, com hambúrgueres no lugar de hóstias.

Em meio às guloseimas de Satã, entra em cena a iguaria maior, Monica Iozzi, na pele de Raquel, uma repórter de escrúpulos duvidosos que cai nas garras do demo e se empapuça de suas cutículas com o desejo de brilhar na TV. Existe um tônus romântico em torno de Raquel, mas Monica dribla seu determinismo lírico, apostando numa figura tridimensional, que sente, que sofre… mas que chafurda no enxofre da cobiça quando vê os holofotes da oportunidade brilharem. A atuação dela torce obviedades da nossa moral e põe pimenta no filme, que derrapa um pouco nos excessos de música e na falta de retidão de sua dramaturgia na investigação do que há de demoníaco em gente como a gente. Isso dá certo até certo ponto da narrativa, depois desanda. Mas, nem por isso, a graça se esvai. Tampouco a ironia. Visualmente, a direção de arte de Ana Rita Bueno acentua as incongruências entre Céu e Inferno, sem resvalar em objetos cênicos óbvios.

Na reza pela reflexão, A Comédia Divina mexe com certos Absolutos de nosso cinema, tirando a fantasia da inércia.