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Com ‘Ana, Mon Amour’, a Primavera Romena desabrocha em Berlim
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Rodrigo Fonseca

17 Fevereiro 2017 | 13h34

Espécie de "Cenas de um Casamento" versão 20 e poucos anos, "Ana, Mon Amour" é a ofensiva da Primavera Romena na Berlinale 2017

Espécie de “Cenas de um Casamento” em uma versão 20 e poucos anos, “Ana, Mon Amour” é a ofensiva da Primavera Romena na Berlinale 2017

RODRIGO FONSECA
Romênia, a pátria cinematográfica do desconserto, fincou uma vez mais sua bandeira autoral no peito da indústria audiovisual ao iluminar o 67º Festival de Berlim, em seus minutos finais, com um tratado sobre dependência afetiva: Ana, Mon Amour. Parecia Cenas de Um Casamento (1973), de Bergman, só que jovens na casa dos 20 e poucos anos, acossados por instituições como a Saúde e a Educação, como é marca registrada da Primavera Romena, a onda mais sólida do cinema mundial, entre as tendência de CEP determinado, dos últimos dez anos. E seu artífice, Cãlin Peter Netzer, já laureado aqui em 2013, por Instinto Materno, com o troféu principal, tem tudo para se destacar na disputar pelo Urso de Ouro deste ano, firmando-se como um dos cineastas mais sólidos de sua pátria e de todo o Velho Mundo, forçado a purgar quase duas horas no interno da possessão romântica – vista sob uma ótica distanciada, mas que dói.

Tem muita coisa não dita entre Ana (a majestosa Diana Cavaliotti) e Toma (Mircea Postelnicu, de alta voltagem trágica), dois estudantes de Letras que se conhecem na universidade e passam anos juntos, indo do querer na plenitude ao desmame lírico em uma aposta mútua na pertença.

“A palavra ‘mútuo’ é a chave de tudo aqui, pois é uma opção de ambos, por uma necessidade de sofrimento, a manutenção daquela história a dois”, disse Netzer, cuja narrativa embaralha presente, passado e uma sessão de análise na qual Toma tenta entender o que é inconsciente e o que é vida prática.

Toma antes de definhar

Toma antes de definhar de amor

Ana e ele mal saíram da faculdade, mas optam por um casamento que vai embolando dissabores, ciúmes, rejeição dos pais, traumas antigos, a chegada de um bebê e o desapego. Há uma farpinha do filme contra Paulo Coelho, numa cena em que Toma, já formado, trabalhando para um jornal, esnoba o autor de O Diário de um Mago. Farpas caem também sobre a Igreja, que tem um papel sufocador sobre estes leitores da obra de Nietzsche, pois, diferentemente do filósofo, nem todos acreditam na morte de Deus ou no crepúsculo dos ídolos. Um padre, vivido pelo ator romeno Vlad Ivanov, é o primeiro a avisar a Toma de que um casal deve saber tudo (possível) um sobre o outro antes de dividirem o mesmo teto. Mas os conselhos do Senhor não são ouvidos. Os de Freud até são, mas as sessões de análise têm hora marcada, como o longa dos lembra, num gesto irônico: um diálogo. Há muitos diálogos bons, mas a aparência documental da fotografia tira o foco das palavras, sobretudo quando Toma vai entrando em uma decadência física.

Há uma genealogia à qual Ana, Mon Amour pertence. Ela se refere a esta noção de Primavera Romena, iniciada há 12 anos quando A Morte do Senhor Lazarescu (2005), Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, típica da Romênia, na qual investigações quase sempre irônicas (muitas delas de ritmo tenso) sobre falências institucionais. O procedimento básico da Primavera supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência politica (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos. Desse projeto estético nasceram filmes cultuados como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, ganhador da Palma de Ouro em 2007; California Dreamin’, de Cristian Nemescu; e O Tesouro (2015), de Corneliu Porumboiu, e Sieranevada, do já citado Puiu. O filmaço de Netzer é mais um (grande) exemplar desse cinema que exuma cicatrizes nacionais para ficar para a posteridade no planisfério da imagem.

Parecia difícil, a princípio, haver lugar de conforto para Ana, Mon Amour depois do banho de descarrego que a Berlinale tomou na sessão do desenho animado chinês Have a Nice Day, uma pepita dourada em termos de roteiro, dirigida por Liu Jian. É um filme de malandros em busca de uma mala de dinheiro, tendo um matador de aluguel fã de Rocky Balboa na trama, que lembra (no enredo e no estilo) Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), dos Coen. Mas a estética de Netzer se fez impor.

"The Other Side of Hope"

“The Other Side of Hope”; humor em riste

Apesar de toda a contundência de Ana, Mon Amour, o filme de Netzer terá pela frente um adversário apregoado pelas mais variadas línguas como um “bem necessário” ao papel social do cinema: a (delícia de) comédia The Other Side of Hope, do aclamado diretor finlandês Aki Kaurismäki. O decano da crítica brasileira José Carlos Avellar (morto em 2016) dizia que este realizador era uma das poucas alternativas à “doença” que os europeus imprimem em seus longas-metragens recentes, quase sempre de tom niilista, regido pela patologia social, existencial ou política. Kaurismäki vai no sentido oposto disso e prega o riso como arma de resistência, retratando a malandragem como alternativa para a falência institucional. Neste seu novo trabalho, um ás do carteado, que ganhou uma bolada no jogo, monta um restaurante onde vai acolher um refugiado sírio… e um cachorro que aprende árabe.

Julio Machado tem uma atuação magistral como Tiradentes em "Joaquim", de Marcelo Gomes

Julio Machado tem uma atuação magistral como Tiradentes em “Joaquim”, thriller político de Marcelo Gomes

No páreo de Kaurismäki estão (o transcendente) Colo, de Portugal, e Una Mujer Fantástica, do Chile, que deve render o prêmio de melhor interpretação feminina para uma atriz trans: Daniela Vega. O concorrente brasileiro Joaquim – cujas sessões foram marcadas por protestos dos cineastas e produtores nacionais contra a quebra do processo democrático no país, com direito a cartazes de “Fora Temer!” em alemão – tem tudo para dar o prêmio de melhor ator a Julio Machado, pelo papel de Tiradentes. Nenhum ator fez nada à altura. E, sem bairrismos, o filme merecia até mais prêmios, inclusive para a direção (precisa) de Marcelo Gomes. Mas esta deve ser a láurea de Netzer – o que não seria desleal.  

Para o fechamento de sua programação, em exibições hors-concours esta noite, Berlim agendou dois mimos de Hollywood. De um lado, vem a versão 3D de Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, com direito à esperada passagem do T-800, Arnold Schwarzenegger, pela luxuosa sala do Zôo Palast; do outro lado, temos o eletrizante Logan, a terceira aventura solo de Wolverine na telona, que pode marcar a despedida de Hugh Jackman do papel que defende a 17 anos a fio. E essa despedida chega com toda a pompa que o Carcaju merece, numa mistura de Sam Peckinpah com Stranger Things. Quem já viu, garante ser o melhor filme da franquia X-Men e um dos melhores longas de super-herói do cinema. A direção é de James Mangold, de CopLand (1997).

 

No mundo ideal, o resultado da competição seria:

Urso de Ouro: Colo, de Teresa Villaverde;

Grande Prêmio do Júri: empate entre The Other Side of Hope, de Aki Kaurismäki, e Félicité, de Alain Gomis;

Direção: Cãlin Peter Netzer, por Ana, Mon Amour;

Atriz: Daniela Veja por Una Mujer Perfecta;

Ator: Julio Machado, por Joaquim;

Roteiro: Have a Nice Day, de Liu Jian;

Troféu Alfred Bauer (de Invenção de Linguagem): Mr. Long, de Sabu;

Contribuição Artítica: A fotografia de On Body and Soul e a trilha sonora de Have a Nice Day.

Drama romeno de Netzer pode render a ele o prêmio de direção

Drama romeno de Netzer pode render a ele o prêmio de melhor direção

O pior do festival:

On The Beach At Night Alone, de Hong Sangsoo, e Bright Nights, de Thomas Arslan.

 

Os melhores filmes fora de competição e nas mostras paralelas:

 The Lost City of Z, de James Gray;

No Intenso Agora, de João Moreira Salles;

Call Me By Your Name, de Lucca Guadagnino.

 

 

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