Com ‘A Chegada’, o Festival do Rio 2016 abre suas portas na chave do afeto

Com ‘A Chegada’, o Festival do Rio 2016 abre suas portas na chave do afeto

Rodrigo Fonseca

07 Outubro 2016 | 10h08

“A Chegada”: metafísica afetiva

RODRIGO FONSECA
Começou a maratona cinéfila anual dos cariocas, o Festival do Rio, aberto sob a égide do afeto com a escolha – acertada – de um tratado metafísico sobre a tolerância entre os povos: A Chegada (Arrival), do canadense Denis Villeneuve. Entenda-se esse acerto em duas vias. A primeira delas se dá no plano da vocação do evento (organizado sob o olhar curatorial de Ilda Santiago) de acompanhar o “plano de carreira” de diretores com o dom de embatucar nossas convicções e convenções. E esse é o caso deste realizador quebequense de 49 anos, em franca ascensão profissional, revelado ao mundo com Incêndios (2010) e hoje a um passo de rodar Blade Runner 2049, com Harrison Ford e Ryan Gosling. O evento trouxe outros longas-metragens dele em edições passadas, com destaque para o possante Sicário, que foi a febre do festival em 2015. Mas o segundo acerto, que precisa (e merece) ser destacado foi a sintonia fina desta sci-fi com a sempre vulcânica Amy Adams com o momento atual do país, no qual os abismos políticos inerentes ao processo de impeachment e de troca presidencial fez do ódio o esperanto nacional: nada mais adequado, portanto, do que um filme sobre o congraçamento feito a partir de trocas linguísticas, da conversa.

Exibido (e esnobado pelo júri) no Festival de Veneza, em setembro, A Chegada segue os passos de uma linguista, especialista em múltiplos idiomas, a professora Louise (Amy, devastadora), escalada pelo Exército dos EUA, representado na farda do coronel Weber (Forest Whitaker), para estabelecer contato com os tripulantes de uma nave espacial extraterrestre. O óvni pousa em Montana e é visto em demais cidades do mundo, o que causa pânico. Sabe-se, por um preâmbulo (cuja função na narrativa se chama na teoria dramática de “fábula de apresentação”), que Louise perdeu sua filha para uma doença terminal, logo após sair de uma separação. Mesmo arrasada em seu vazio – é o que o longa nos leva a crer – ela vai executar a missão de conversar com um par de ETs em forma de molusco, batizados de Abbott e Costello, numa referência à dupla de comediantes famosa nos anos 1940 e 50. A seu lado, Louise terá o físico cético Ian (Jeremy Renner, insosso e mal escalado). E sua sombra será um soturno agente da CIA temeroso de ataques do espaço: Halpern, encarnado com esplendor por Michael Stuhlbarg, um dos atores de maior (e melhor) evolução nos EUA hoje. E toda essa intriga de predestinação vem do conto Story of Your Life, de Ted Chiang.

a Arrival poster


Houve um clima geral de racha de opiniões ao fim da exibição na Cidade das Artes, sede da cerimônia de abertura, realizada na noite de quinta, dando a largada para uma seleta de títulos que vai mobilizar o Rio até o dia 16. Ouvia-se um “Ih, não entendi” de muitas bocas, um “Mas por que não foi um filme brasileiro?” de outras e um “Chorei!” de outras tantas, bestificadas com o mergulho frontal de Villeneuve na emoção, ao abrir seu longa com uma reflexão sobre maternidade. Houve até quem comparasse o tom de A Chegada com a estética transcendentalista do americano Terrence Malick e seu A Árvore da Vida (2011), pela dimensão filosófica e pela estrutura contemplativa de ambos, muito calcada no uso de voz em off. Mas há uma diferença central entre os dois: Malick, em seu messianismo, é a descarnalidade plena, afastado do corpo, com foco na alma e na condição espiritual. O cinema de Villeneuve é “matéria”, é carne, é útero, é toque. O que se vende como uma ficção científica com ecos de Solaris (1972) troca a especificidade existencialista e tom transcendente de Tarkóvski por um investimento descabelado no melodrama, que não chega ao rosário de lágrimas de um Franco Zefirelli, mas evoca elementos clássicos do formato.

Há uma aparente engenharia de aventura, que poderia se cristalizar a partir da luta entre Louise e o “desconhecido”, representado pela busca por construir um alfabeto comum com os aliens, tendo Halpern como um oponente. Mas Villeneuve opta por um caminho menos espetaculoso e mais intimista, como fizera ao trabalhar o thriller em seu Os Suspeitos (sucesso de bilheteria em 2013), enveredando por um clima mais lento, de observação, sem viradas bruscas, no qual o objeto da comunicação com Abbott e Costello é mais o autoentendimento da tradutora do que a ameaça de uma potencial guerra dos mundos. A chave se dá num diálogo entre Louise e Ian. Ela diz: “A chave para o estabelecimento de qualquer cultura é a língua”. E ele retruca: “Jamais! A chave para o estabelecimento de uma cultura é a Ciência”. Estabelece-se a dicotomia do filme aí: ele cultua o racionalismo empírico da comprovação e do resultado; ela crê na poesia, na transcendência e na progressão aritmética da linguagem. O filme se veste com ambos as argumentos, caminhando para uma dialética do entendimento numa jogabilidade de roteiro circular, de causar surpresa – e impor doçura.

O saldo de gol mais válido do belo A Chegada é a iluminação que ele nos traz sobre a obra de seu realizador, que não chega a se estabelecer como um autor (uma vez que não demonstra uma identidade temática ou formal ou filosófica recorrente), mas nem por isso deve perder o direito de ser encarado como um dos artesões de maior vigor do cinema atual. Há conversações indiretas entre esta sci-fi e Incêndios, na tônica trágica dos dilemas maternos, assim como há um parentesco de discurso com o subestimado longa O Homem Duplicado, filmado por ele em 2013, com base na prosa de José Saramago. Não é possível ainda saber com exatidão como classificar a obra de Villeneuve. Mas o fato de ela gerar incômodos e incertezas já faz dela uma ave rara na pasteurização atual da imagem.

Andreia Horta rasga corações em

Andreia Horta rasga corações em “Elis”

p.s.: Menina dos olhos do Festival do Rio, a Première Brasil abre suas asas nesta sexta, de casa nova (o Cine Roxy, em Copacabana) com o doc Waiting for B. e a ficção Vermelho Russo, de Charly Braun, que põe Michel Melamed em terras eslavas. Ainda no âmbito da brasilidade, o Odeon – Centro Cultural Severiano Ribeiro acolhe nesta sexta, às 19h, o premiadíssimo Elis, de Hugo Prata, com Andreia Horta abrindo as entranhas no esforço (comovente) de interpretar a Pimentinha, com Lúcio Mauro Filho de Miele.  

p.s. 2: Ainda nesta sexta, o Festival do Rio inicia uma programação paralela na Praça Mauá, usando o Boulevard Olímpico como um centro de exibições, com direito, neste seu primeiro dia de uso, ao ecológico Amazônia, de Thierry Ragobert, e ao romance Apaixonados, de Paulo Fontenelle. Merece destaque na produção um dos docs de maior leveza da seleção carioca de 2015: Marias, um road movie de Joana Mariani em busca da representatividade religiosa, social e amorosa do nome de Nossa Senhora em nossos tempos sem fé. Esta produção está agendada para o dia 9, às 18h. Num périplo por diferentes pontos da América Latina, a diretora faz um cinema investigativo fiel a uma tradição de jornada que demarca o nosso cinema desde os anos 1920 – vide os registros de Benjamin Abraão no cangaço. Mais conhecida como produtora – e uma produtora de escolhas requintadas (Trinta, O Cheiro do Ralo) – Joana carrega uma experiência na direção de (bons) curtas que se pauta por um olhar sobre estratégias de sobrevivência, como é o caso de seu Cavalo (2011). Em sua estreia no posto de diretora de longas, ela leva essa mesma curiosidade sobre conjugações possíveis para o verbo “sobreviver” numa estrutura geopolítica na qual a emotividade é sua estrela de Belém. Encontram-se Marias de muitos tipos, muitas caras e até de outros sexos. Mas os achados importam menos do que o rastreio e a imersão em modos de orar e de viver a religiosidade.

p.s.3: Para quem precisa daquela dica para saber o que ver hoje: às 23h45, no Odeon, rola Dog Eat Dog, filme de bandidos de Paul Schrader (A Marca da Pantera) que fechou a Quinzena dos Realizadores de Cannes com Nicolas Cage e Willem Dafoe na pela de um par de larápios atrapalhados.