Cine Ceará cresce com a prata da casa: novo cinema cearense junta poesia e metafísica

Cine Ceará cresce com a prata da casa: novo cinema cearense junta poesia e metafísica

Rodrigo Fonseca

19 Junho 2016 | 12h00

“Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”

Chamas da invenção, com o ardor do pop e da irreverência, incendiaram o Cine Ceará na noite de sábado, em Fortaleza, quando uma cibertrans (uma transsexual ciborgue) passou pela telona do Cineteatro São Luiz tingindo o festival com tintas sci-fi, à força da malícia cyberpunk de Janaina Overdrive, maior achado do evento até aqui. E é um filme local: gestado e produzido no Ceará. Com direção de Mozart Freire, a produção – que lembra Blade Runner em sua fauna de clones, cyber-rappers e bandidos de rosto biônico – assinala a renovação narrativa que se instaura na cena audiovisual cearense sobretudo a partir do marco Estrada para Ythaca (2010), do coletivo Alumbramento. Um deles, Guto Parente, assina o filme de encerramento do festival: O Estranho Caso de Ezequiel, a ser projetado na quarta, ao largo da cerimônia de premiação. Mas antes, outra prata do estado, Petrus Cariry, nome fundamental da excelência lá alcançada só nesta década, volta aqui com seu último – e magistral – trabalho: Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, com sessão nesta segunda.

De certa forma, o espírito “novíssimo” que anima uma transição na produção de filmes do Ceará, levando-o por veredas mais existenciais, focadas mais no vazio na alma do que no vazio de barrigas famintas pela desigualdade econômica, teve como um marco seu O Grão (2007). Ali, Petrus, numa estética que lembra Tarkóvski, já apontava os elementos que marcariam sua obra: relações familiares, conversas lacunares nas quais pouco sabemos sobre antecedentes, uma aura mística relativa a uma certa tradição milenar da afetividade e o esgarçamento do Tempo (pelas vias da contemplação) em narrativas de duração quase sempre enxutas (cerca de 80, 90 minutos), breves na extensão física mas duradouras na longevidade sensorial em nossa memória. É quase um cinema de haicais, que encontrou em Mãe e Filha, de 2011, sua potência máxima.

Petrus dirige Sabrina Greve

Petrus dirige Sabrina Greve

Mas em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, essa potência tem suas arestas aparadas, num trabalho de ourives – sobretudo em sua montagem lúdica – com foco na revisão dos demônios ocultos que toda fábula de filhos pródigos liberta. Aqui, num clima de horror psicológico e de erotismo capaz de evocar a elegância de Jacques Tourneur (tipo Sangue de Pantera), uma mulher presa aos desígnios de seu clã, Clarisse (defendida visceralmente por Sabrina Greve), vai passar um fim de semana com o pai moribundo. A volta à casa da infância põe à tona uma série de ranços e de traumas, regados a sangue – muito sangue – e sexo, num clima sufocante, de domínio pleno das cartilhas de gênero, mas também da condição metafísica do cinema.

É um concorrente de peso para o Cine Ceará e uma demonstração de amadurecimento para um diretor cuja única bandeira parece ser a liberdade de estilo e de pesquisa narrativa. E seu filme tem em Sabrina Greve um motor de arranque, numa atuação digna de loas e prêmios.

No sábado, o Rio de Janeiro bateu ponto aqui com Maresia, de Marcos Guttmann, no qual o eterno Capitão Furacão, o ator e dublador Pietro Mario Bogianchini, iluminou a noite de Fortaleza vivendo um velho espanhol às voltas com um jovem galerista (Julio Andrade) em busca de respostas sobre um pintor morto há décadas. Sempre vigoroso, Andrade se lança como um fortíssimo candidato ao prêmio de melhor ator num duplo papel, vivendo o pesquisador de uma galeria e também o pintor por ele investigado, em dois tempos que se espelham. A montagem alinha bem as duas instâncias narrativas, inspiradas pelo romance Barco a Seco, de Rubens Figueiredo. Guttmann consegue, com competência, ir além da dimensão investigativa da trama e fazer dela uma espécie de ensaio sobre o fazer artístico, refletindo não apenas sobre a pintura, mas sobre a própria condição do cinema.

Neste domingo, o Cine Ceará recebe aquele que promete ser seu filme mais polêmico: o documentário Menino 23, de Belisario Franca, sobre o rapto de uma série de meninos por uma família simpatizante do nazismo no Brasil dos anos 1930.