Christophe Honoré leva Cannes ao tédio… e raspa na misoginia

Christophe Honoré leva Cannes ao tédio… e raspa na misoginia

Rodrigo Fonseca

10 Maio 2018 | 17h39

Rodrigo Fonseca
Como já era esperado, Christophe Honoré trouxe a primeira grande bomba da competição pela Palma de Ouro até agora, num caso de bola antecipado, dado o histórico grotesco de filmes ruins em seu repertório. Plaire, Aimer et Courir Vite é aquele tipo de dramaturgia Denorex, “parece, mas não é”: finge ser um episódio de Will & Grace mas não é; pretende ser um balanço geracional sobre a solidão dos 35 anos, mas não chega lá; esboça fofura, mas cai no pedantismo. Os créditos de abertura são de uma beleza que não condiz com o sujeito que cometeu As Bem-Amadas (2011). E a montagem vai bem nos primeiros 25 minutos, quando tudo tropeça no tédio e no absoluto vazio reflexivo. Percebe-se que esta quinta-feira foi um dia de extremos na Croisette. Pela manhã, o musical russo Leto – torto, mas inquieto – tacou fogo no balneário com um retrato alegre e comovente da cena roqueira de Leningrado nos anos 1980 – e sua fotografia é um desbunde, vitaminada por recursos de animação. Pela noite, vem Honoré, o mais equivocado dos diretores franceses que integram um seleto clube de queridinhos locais de Cannes, e emporcalhou a seleção com sua escrita de roteiro cheia de arestas a aparar. Um bando de críticos debandou de sua projeção com cerca de 45 minutos. Até porque a narrativa não sai do lugar.
Em Plaire, Aimer et Courir Vite, ele constrói uma love story homoafetiva sobre projetos literários e afetivos fracassados. Um dublê de escritor falido vive um esboço de relação com um rapaz bissexual que desdenha de uma jovem cheia de desejo por ele. O retrato das mulheres no filme raspa o limite da misoginia, como acontecia em Canções de Amor (2007), filme desastroso que deu fama a Honoré… sabe-se lá por que razão. O desrespeito dele na representação das mulheres é o que mais irrita na obra desse cineasta, que apesar de sua louvável contribuição na defesa das causas LGBTQ não se esforça em refinar sua composição de personagens. O protagonista é raso, sem qualquer tridimensionalidade. Coadjuvante de luxo, no papel de um amigo do quase Balzac deste quase filme, Denis Podalydès dá um pequeno show de provocação moral. Mas nada que salve o barco do naufrágio.
Há contudo que se fazer um alerta: Honoré tem um eleitorado forte na França. O filme PODE fazer sucesso aqui. E tomara que esse sucesso se reproduza no Brasil também, onde ele tem seus fãs.

Na Um Certain Regard, pintou uma surpresa da Suécia: a fábula sombria Border, sobre uma oficial de fronteira com faro aguçado que se deixa seduzir por uma criatura misteriosa.