Cate na apoteose da arte

Cate na apoteose da arte

Rodrigo Fonseca

15 Janeiro 2016 | 15h49

Numa atuação soberba, a australiana Cate Blanchett concorre ao Oscar de melhor atriz por

Numa interpretação soberba, a australiana Cate Blanchett concorre ao Oscar de melhor atriz por “Carol”, versão do diretor Todd Haynes para a prosa de Patricia Highsmith

Embora a disputa pelo Oscar de melhor atriz de 2016 pareça já estar decidida, em função de todo o favoritismo em frente a Brie Larson e seu desempenho (de extrair litros de choro) em O Quarto de Jack (Room), nunca se deve menosprezar o poder de fogo da australiana Catherine Elise “Cate” Blanchett, indicada uma vez mais por sua (fina) interpretação em Carol, de Todd Haynes. O drama de época estreou no Brasil na quinta, realçado por indicações ao dourado troféu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood em seis frentes: além da nomeação de Cate, o longa concorre aos prêmios de melhor roteiro adaptado, fotografia, figurino trilha sonora e atriz coadjuvante (Rooney Mara). A montagem é assinada pelo brasileiro Affonso Gonçalves. É difícil não se deixar arrebatar pela atuação da loura que já ganhou nosso cinéfilo coração em produções como Elizabeth (1998) e Blue Jasmine (2013): numa reconstituição dos EUA da década de 1950, ela vive uma mulher de alta classe média, em vias de separação, que resolve viver sua homossexualidade sem medo, saboreando a paixão por uma jovem.

“A alegria maior que existe no ofício de atuar é pesquisar, ou seja, estudar modos de viver diferentes do seu. E o que mais tivemos que pesquisar nesta love story lésbica foi a forma de se viver em uma época da nossa História quando não havia rótulos. As pessoas que saíam das supostas convenções se isolavam, para poderem viver o prazer com liberdade, para estabelecerem conexões afetivas concretas, sólidas. E é preciso empenho nessa pesquisa, pois o trabalho de um artista é ajudar a expandir fronteiras de mundinhos oprimidos pelo preconceito”, disse Cate ao P de Pop, durante o Festival de Cannes, onde Carol, saudado a gritos de “Bravo!” disputou a Palma de Ouro.

Ampliando a precisão cirúrgica da câmera de Haynes, a montagem de Gonçalves dá ao filme um ritmo de tensão ao dialogar com a tradição do melodrama americano dos anos 1950, a começar pelo príncipe do gênero: Douglas Sirk (1897-1987), realizador de Imitação à vida (1959). Haynes havia já parafraseado Sirk em Longe do Paraíso (2002). Mas aqui, a paráfrase chega às raias da perfeição, apoiando-se na química entre Cate e Rooney, que saiu da Croisette laureada com o prêmio de melhor atriz (em empate com a francesa Emmanuelle Bercot, por Mon Roi). Com base no romance The Price of Salt, lançado por Patricia Highsmith em 1952, esse drama romântico rodado em Cincinnati, Ohio, foi laureado no Festival de Chicago e ganhou o troféu principal da mostra Camerimage, na Polônia

“O fato de a homossexualidade ainda ser um crime em muitos países torna ainda mais urgente que se conte esta história, ainda que ela fale de duas mulheres apaixonadas sem assumir bandeiras específicas. Procuramos fazer um filme onde os códigos de feminino e masculino se misturam”, diz Cate, que será vista nas telas brasileiras ainda neste semestre ao lado de Christian Bale em Cavaleiro de Copas, de Terrence Malick.

Rooney Mara vive a paixão de Cate no drama

Rooney Mara vive a paixão de Cate no filme

Com alta voltagem romântica, “Carol” é daqueles filmes que dão frio na barriga a cada virada do roteiro. Arrepios correm espinha abaixo quando não se sabe o que há de ser do futuro das duas potenciais amantes: Therese (Rooney) e a Carol do título, defendida por Cate. A temperatura sobe à ereção máxima (o trocadilho aqui não é deselegância, é sinceridade) apenas quando Carol perde o decoro, abre o roupão e ataca sua paixão. Daqui pra frente é melhor não adiantar mais nada da trama, apenas que a personagem principal tem uma filhinha pequena cuja guarda pode ser perdida por pressão de seu futuro ex-marido, um ricaço dominado pela mãe, encarnado pelo ator Kyle Chandler com o máximo de empenho.

“A questão da maternidade é essencial ao drama de Carol, como, aliás, é uma transformação brusca na vida de qualquer mulher. Tenho quatro filhos. Depois de um parto, você para o seu próprio corpo com estranheza. É um organismo diferente, que gerou uma vida. Mas essa condição de ser mãe é algo que impulsiona”, diz a atriz, que divide seu tempo entre o cinema e os palcos. “Faço vários filmes e cuido de uma companhia de teatro na Austrália, mesmo tendo que cuidar das crianças. Mas há que seguir tentando. E há que seguir fazendo filmes que façam pensar, como este, que Todd filmou com o esmero de ressaltar o inaudito, o silencioso, o que é velado. Carol nos lembra do quanto é difícil viver pelas frestas”.

Viva Cate!

p.s.: Já é dada como certa a inclusão do documentário brasileiro Curumim, de Marcos Prado (Estamira) na seção Panorama do 66º Festival de Berlim (11 a 22 de fevereiro). O filme fala o brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, executado por fuzilamento na Indonésia, aos 53 anos, em janeiro de 2015.

“Curumim”, de Marcos Prado: execução na Indonésia

p.s.2: Falando da Berlinale, foi divulgada hoje uma lista de filmes, documentais ou docudramáticos, sobre comida na mostra Culinary Cinema do festival alemão. Confira:

Ants on a Shrimp – Holanda
de Maurice Dekkers

Café Nagler – Israel / Alemanha
de Mor Kaplansky

Campo a través. Mugaritz, intuyendo un camino. (Off-Road. Mugaritz, Feeling a Way.) – Espanha
de Pep Gatell

Cooked – Fire / Air – EUA
de Alex Gibney / Ryan Miller

How to Build an Igloo – Canadá
de Douglas Wilkinson

In Defense of Food – EUA
de Michael Schwarz

Kivalina – EUA
de Gina Abatemarco

Need for Meat – Holanda
de Marijn Frank

Noma – My Perfect Storm – Reino Unido
de Pierre Deschamps

Portret van een tuin (Portrait of a Garden) – Holanda
de Rosie Stapel

The Singhampton Project – Canadá
de Jonathan Staav

Vormittags-Spuk – Alemanha
de Hans Richter

Wanton Mee – Singapura
de Eric Khoo

p.s.3: No dia 23, o Telecine exibe, a partir das 19h40m, uma sequência de três filmaços com o ator dinamarquês Mads Mikkelsen, hoje um dos maiores talentos da Europa nas telas. A mostra começa com o épico Michael Kohlhaas – Justiça e Honra (2013), segue, às 22h, com o faroeste A Salvação (2014) e termina com o sombrio drama A Caça, pelo qual ele conquistou o prêmio de melhor ator em Cannes, em 2012.

Mads Mikkelsen no western

Mads Mikkelsen no western “A Salvação”: dia 23 no Telecine