‘Cartas da Guerra’ é o achado do fim de semana na Mostra de SP

‘Cartas da Guerra’ é o achado do fim de semana na Mostra de SP

Rodrigo Fonseca

28 Outubro 2016 | 19h36

“Cartas da Guerra”: conflitos coloniais

RODRIGO FONSECA
Vem de Portugal o grande achado da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste domingo: Cartas da Guerra, um dos filmes mais aclamados da história recente do povo lusitano nas telas, tendo sido “a” sensação visual do último Festival de Berlim, por sua exuberância fotográfica. Lançado por lá em 1º de setembro, quando foi escolhido para representar a “terrinha” na briga por uma vaga na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, a produção dirigida por Ivo M. Ferreira vai estar em telas paulistanos neste dia 30, às 21h10, no Reserva Cultural, sendo reprisado agora nesta segunda, 17h10, no Espaço Itaú Frei Caneca, sendo projeto mais uma vez no dia 2, às 21h, no Caixa Belas Artes. Em seguida, ele vai concorrer no BIFF Festival Internacional de Cinema de Brasília, que começa no dia 4.   

A equipe do longa em Berlim

A equipe do longa lusitano em Berlim

Da boca de um veterano dramaturgo, o francês Jean Anouilh (1910-1987), autor de O Viajante Sem Bagagem, veio acertada lição de que “existe o amor, é claro, e existe a vida, sua inimiga”. E é a partir deste aforismo filosófico sobre querer que se articula o deslizamento da palavra à imagem no processo de diálogo entre cinema e literatura estabelecido pelo cineasta Ivo M. Ferreira, no todo-poderoso Cartas da Guerra, um dos indicados – o mais doce, aliás! – ao Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2016. Há o bem-querer, é claro, como bem disse Anouilh, mas existe a brutalidade institucional e existe o imperialismo, que dão as mãos numa tentativa de sufocar o altruísmo na África de António Lobo Antunes. São as entranhas dele, em prosa epistolar, que anima este longa-metragem, num fluxo de consciência expresso como uma ode ao amor. E, desde a Berlinale, sua fotografia, em preto e branco, tem deixado críticos estonteados.

 

Centrada nos conflitos armados coloniais da década de 1970, entre portugueses e angolanos, a produção é baseada em epístolas escritas pelo próprio Lobo Antunes e traz o ator Ricardo Pereira, galã popular no Brasil em novelas da TV Globo, sob a farda de um dos combatentes lusos. Sua atuação é pontual, mas tocante, sobretudo num desabafo que sintetiza toda a azia moral dos campos de batalha. A narrativa é toda estruturada em cima de uma narrativa em off, que corresponde às cartas (regadas pelo fel da ausência) trocadas entre o médico militar António (Miguel Nunes) e sua mulher, Maria José (Margarida Vila-Nova), enquanto ele está em missão em um front africano, em 1971. Os dois trocam frases regadas a ultrarromantismo, do tipo: “A distância apaga muita coisa, até o som de uma voz”.

Existe em cena um lado político, expresso a partir da autopsia de uma tragédia que uniu duas nações. Há um sentimento de que a perversão é a bússola das atitudes de quem guerreia, como uma inquieta reação à inutilidade dos confrontos em trincheiras. Mas, a cada nosso plano, os maniqueísmos caem e os lados contrários se pasteurizam pelo sangue ou pelo apego a amor, pois o objeto explosivo chamado paixão é uma maneira de representá-las como sobreviventes. Só o amor foi capaz de fazer António sobreviver na vida real.

Rodado em solo angolano com destaque épico para a paisagem local, Cartas da Guerra tira de Ricardo Pereira aquela que talvez seja a melhor interpretação de uma carreira multinacional, dividida entre a teledramaturgia brasileira e filmes europeus de prestígio. Ele interpreta um dos oficiais que contam com a ajuda de Dr. António. Numa sequência que comoveu a Berlinale, ele externaliza sua fadiga em relação ao ambiente de morte ao seu redor, usando uma apreensão com sua saúde para encobrir suas angústia. Seu pleito é um rasgo de fragilidade humana em figuras cuja subjetividade está abafada pela obrigação de ceifar vidas. Neste dilema, Ivo inocula em seu belíssimo filme o DNA de épicos similares, seja O Paciente Inglês (1996), de Anthony Minghela, ou Entre Dois Amores (1985), de Sydney Pollack. É a tradição revisitada por olhos lusos… olhos livres.