Cadê o novo Terrence Malick, joia rara de beleza e filosofia?

Cadê o novo Terrence Malick, joia rara de beleza e filosofia?

Rodrigo Fonseca

13 Janeiro 2016 | 17h37

“Cavaleiro de Copas”, que deve aportar no Brasil até o fim deste semestre, põe Christian Bale numa jornada metafísica na qual revê seus amores e, entre eles, está Cate Blanchett

Serão divulgadas nesta quinta-feira, lá pela hora do almoço, as indicações ao Oscar 2016, e, como já é tradição nesse tipo de anúncio, injustiças devem ser cometidas, a começar pelo esquecimento de uma gema reluzente que ficou sem espaço em circuito mundo afora, mesmo tendo disputado o Urso de Ouro em Berlim: Cavaleiro de Copas (Knight of Cups), de Terrence Malick. É daqueles biscoitos finos que derretem na boca, temperadinho com o sabor de guacamaole característico de tudo o que o mexicano Emmanuel Lubezki fotografa. E tem Christian Bale à frente de uma viagem metafísica por uma Los Angeles de sal, sol e solidão. Sem contar que há a presença de Cate Blanchett e Natalie Portman em papéis importantes no desfilar de lembranças de um roteirista que se afunda em um torvelinho de revisões afetivas. Mas nada disso encheu os olhos da indústria para quem Malick se mostrou uma esfinge mercadológica após a carreira atropelada de A Árvore da Vida, filme ganhador da Palma de Ouro em 2011, tratado antes de suas primeiras projeções como uma espécie de novo 2001 – Uma Odisséia no Espaço, mas açoitado por apresentar uma conversa frontal com Deus.

Bale à luz de Emmanuel Lubezki

Bale à luz do fotógrafo mexicano Emmanuel Lubezki

Dessa opção dita messiânica nasceu um desdém em relação a Malick, que atropelou seu belíssimo filme seguinte: Amor Pleno (2012), com Ben Affleck. O que deve ficar claro é a dimensão filosófica por baixo desse perfil clerical atribuído ao cineasta – um diretor avesso a todo e qualquer tipo de badalação, que, desde sua estreia na direção, com o curta-metragem Lanton Mills (1969), só se deixou entrevistar três vezes, recusando-se até a se deixar fotografar. O realizador de Terra de Ninguém (1975) é um discípulo de George Stevens (1904-1975), diretor de Os Brutos Também Amam (1953), e considerado o santo padroeiro dos planos contemplativos na Hollywood clássica. Para Stevens, a câmera precisa passear, pois, só assim, ela pode revelar o quanto as forças da natureza (tipo o petróleo a jorrar em Assim Caminha a Humanidade) é maior do que os seres humanos que a povoam.

Dele, Malick herdou o instinto de fazer com que a câmera trafegue pelo Espaço alheia às demandas do tempo capitalista, devota ao Tempo mítico, onisciente e onipotente, a fim de poder flagrar nos mais simples gestos humanos a expressão dos impasses afetivos mais inauditos. É o que acontece em Rei de Copas quando a Arri Alexa M ou a GoPro iluminadas pela luz de Lubezki se demoram sobre os corpos de gogogirls ou sobre as ondas de Santa Mônica.

Knight Of Cups a 13

Além de Stevens, o cógito malickiano é mediado pela leitura do Transcendentalismo, a corrente segundo a qual existe um estado espiritual ideal, que sublima a percepção pela experimentação física e empírica, defendendo o entendimento sensível do mundo e mesmo do que existe de divino por meio de uma sabedoria intuitiva, individual. Foi nas páginas de ensaístas transcendentalistas como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau que Malick passou a fazer da Natureza a Divindade primeira, o caminho para o Absoluto, a estrada para a iluminação. E o ideal transcendental escorre pelos planos de Cavaleiro de Copas a partir da sensação de vazio que Rick (Bale, soberbo) sente ao se embrenhar por festas, num ritmo de vida loca.

Mulheres que amou vão dar a ele algum sentido. O sentido que não construiu na relação com o pai, vivido pelo genial (e esquecido) Brian Dennehy, o xerife de Rambo – Programado para Matar (1982). O irmão querido (mas perdido), interpretado por Wes Bentley, também funciona como uma brisa fria num mundo ao sopro do vendaval. E é sob as intempéries do autoentendimento de Rick que Malick nos conduz por um espetáculo visual de belezas raramente enquadradas, filosoficamente alinhavadas pela necessidade que o diretor tem de resgatar a dimensão filosófica do cinema.

No Brasil, o longa-metragem reside nas mãos da Diamond Filmes, que fez um trabalho belíssimo com Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino. A previsão de estreia deste Malick tão doloroso (mas tão necessário) é ainda para este primeiro semestre. Na torcida…

 

p.s.: Cruzemos os dedos por Sylvester Stallone nesta quinta, no anúncio dos indicados ao Oscar de melhor ator coadjuvante, à força de seu desempenho em Creed – Nascido para Lutar. A consagração dele no Globo de Ouro, no último domingo, realçou o peso mítico que existe no reconhecimento de tudo o que Rocky Balboa representa para a história da recepção cinematográfica. E vale lembrar que Sly foi imortalizado no Brasil, em seus primeiros tempos de Rocky, na voz de André Filho, dublador de talentos múltiplos morto em 1997, para a nossa carência.

p.s.2: Alguém aí já viu o trailer de The Nice Guys, com Russel Crowe e Ryan Gosling? Tudo indica que Shane Black, lendário roteirista de Máquina Mortífera (1987). O filme recria a Los Angeles de 1970 a partir das peripécias de dois detetives de classe pé de chulé que se envolvem numa suposta conspiração. Promete.

 

p.s.3: Falando da década de 1970, um dos maiores gênios daquele período, o senhor Brian Russell De Palma, anda fora das telas há tempos, com um filmaço, Paixão (2012), inédito no Brasil depois de quatro anos de sua primeira projeção pública. Mas a Versátil está trazendo para o mercado de DVDs nacionais um box com alguns de seus filmes mais ousados: Um Tiro na Noite (1981), O Fantasma do Paraíso (1974) e Irmãs Diabólicas (1973). Artigo de luxo.