Brasília na marcha lírica de ‘Não Devore Meu Coração’

Brasília na marcha lírica de ‘Não Devore Meu Coração’

Rodrigo Fonseca

24 Agosto 2017 | 21h06

Cauã Reymond desafia suas próprias convenções no virulento “Não Devore Meu Coração”: abertura do 50º Festival de Brasília dia 15/9

Rodrigo Fonseca
Deus Sol do imaginário gaúcho, o Kikito perdeu a chance de contemplar a excelência narrativa (associada ao modo lírico de escarafunchar a fantasia brasileira) de Não Devore Meu Coração depois que a (esperada) produção com Cauã Reymond teve que deixar a seleção competitiva de Gramado – porém o coração da República ganhou com isso, agora que o longa-metragem vai abrir o 50º Festival de Brasília. A abertura será no dia 15 de setembro, incluindo ainda o curta Festejo Muito Pessoal, de Carlos Adriano, seguido da apoteótica incursão de Cauã por uma geografia de western pós-moderno. Este thriller afetivo iniciou sua carreira de fora pra dentro, aos olhos de uma plateia americana, durante o Festival de Sundance, nos EUA, lá em janeiro, quando a nada convencional e pouco realista fotografia de Glauco Firpo foi um ímã de elogios. Don’t Swallow My Heart, Alligator Girl! é o título pelo qual o filme ficou conhecido no exterior, tendo sido exibido ainda no Festival de Berlim, de onde saiu com um varal de boas resenhas.

Dois adolescentes vivem uma paixão mediada por energias e sombras da Guerra do Paraguai na trama

Mais fabular (e mais virulento) de todos os mergulhos recentes do cinema nacional do Centro-Oeste, com um roteiro lotado de falas poéticas, o filme do carioca Felipe Bragança (de A Alegria) é uma mistura de Meu Primeiro Amor com O Selvagem da Motocicleta, temperado a litros de catuaba. Numa reinvenção de seu arquétipo de galã, Cauã, atual astro rei da TV brasileira, vive o motociclista Fernando a.k.a. Dezembro, integrante explosivo de uma gangue na fronteira entre Brasil e Paraguai. Bragança contou aqui com a sua parceria de direção Marina Meliande (que tem por vir por aí uma força da natureza chamada Mormaço, dirigido por ela) num outro posto: o de produtora. Dina Salem Levy assina a delicada direção de arte que amplia o misticismo daquele mundo de vinganças, lendas e desejos represados.

Na trama baseada em contos de Joca Reiners Terron, o jovem de 13 anos João Joca Carlos (Eduardo Macedo), irmão de Fernando, é apaixonado por uma menina índia, por quem é capaz de tudo, sobretudo depois que encontra uma espada da Guerra do Paraguai. Foi calorosa a acolhida berlinense a Não Devore Meu Coração, com interesse especial do público alemão para a sofisticada estrutura em atos (espelhados pelas memórias do conflito paraguaio) do roteiro. Também chamou atenção o surpreendente desempenho de Macedo como Joca. Leopoldo Pacheco tem uma atuação primorosa num papel pequeno, mas estratégico. Sua escolha por Brasília não poderia ser das mais felizes para um evento que se reinventa numa aposta na diversidade estética e na celebração da autoralidade. Não por acaso, Nelson Pereira dos Santos, o decano do cinema moderno do país, vai ganhar um tributo lá, numa homenagem a uma obra que nos deu Vidas Secas  (1963) e O Amuleto de Ogum (1974), entre outros míticos exercícios de direção.