‘Bingo’ é uma apoteose para Vladimir Brichta se reinventar

‘Bingo’ é uma apoteose para Vladimir Brichta se reinventar

Rodrigo Fonseca

24 Agosto 2017 | 21h57

Augusto Mendes encara a produtora Lúcia em “Bingo – O Rei das Manhãs”, um dos melhores filmes nacionais desta década – de longe – em vários quesitos, a começar por atuações como as de Leandra Leal e Vladimir Brichta, no melhor de si

Rodrigo Fonseca
Existem vetores simbólicos na História do Cinema Brasileiro que fizeram atrizes ou atores associados a determinado padrão de interpretação ou registro dramático ir para um terreno diferente, no qual o desafio serve de propulsão a uma reciclagem de falas, gestuais e potenciais, como, por exemplo, Jorge Loredo (o Zé Bonitinho) em Sem Essa, Aranha (1970) ou Deborah Secco fazendo Bruna Surfistinha (2011). É essa a operação que torna Bingo, o Rei das Manhãs um dos filmes mais contagiantes feitos em nossas telas nesta década: a passagem de Vladimir Brichta por uma espécie de umbral no qual exorciza todos os lugares comuns da atuação em busca de uma visceralidade – e com ela uma transcendência – que arranca lágrimas. É difícil citar um amadurecimento tão grande de um astro com porte de galã que desde o latente A Coleção Invisível, de 2012, expurga os caminhos fáceis da composição em nome de uma radicalidade na forma de expor as fraturas do masculino.

Há que se dar o devido crédito a boas experimentações feitas por ele em anos recentes, como Real Beleza, de Jorge Furtado, e Um Homem Só, de Claudia Jouvin, ambos de 2015 – e ambos menos apreciados do que merecem.

Diante de um diamante bruto – Daniel Rezende conduz a história mais dionisíaca possível da forma mais apolínea possível, sem que isso dê ruído, numa fluidez de ritmo que dói sem desesperar -, Brichta nos dá o máximo de um homem que quis muito, mas errou demais em sua onipotência e em seus excessos. O homem questão é Augusto Mendes, identidade secreta do palhaço Bingo, a versão brasileira do americano Bozo. Espalham-se pela estrutura de ascensão e queda do roteiro de Luiz Bolognesi (nosso Waldo Salt) deixas para a explosão, num rasgo de catarse que empurra Brichta para o alçapão da loucura. Lembra um pouco o que David Cronenberg faz com James Woods no lisérgico Videodrome (1983). Há nesse mesmo script ranhuras de um certo moralismo, um tanto quanto monocromático em relação à fé. Mas a explosão de cores na dramaturgia (filtrada e galvanizada pela fotografia de Lula Carvalho) compensa a moral e cívica do desfecho. E a habilidade com que Leandra Leal impulsiona o colega, driblando com ele a bola da tensão e da procura, no papel de uma produtora de TV evangélica, dá ao filme uma couraça de dignidade que só o fortifica. É um filme que dá prazer ao debater prazeres e luxúrias.