Berlinale sob a bênção do Cristo Dafoe

Berlinale sob a bênção do Cristo Dafoe

Rodrigo Fonseca

10 Fevereiro 2018 | 10h27

No dia 16, a Berlinale revê “A Última Tentação de Cristo”

Rodrigo Fonseca
Ao escolher o ator americano Willem Dafoe como ganhador do Urso de Ouro Honorário de 2018, o Festival de Berlim, cuja edição número 68 começa na próxima quinta, vai reexibir alguns dos maiores sucessos da carreira de seu homenageado, o que incui uma exibição de seu memorável desempenho como Jesus em “A Última Tentação de Cristo” (1988). No dia 16, a Berlinale confere a epifania metafísica de Martin Scorsese, rodada no Marrocos com base na prosa de Niko Kazantzakis. Originalmente, Aiden Quinn faria o filme, que seria rodado no início dos anos 1980. Mas o fracasso de “O Rei da Comédia” (1983) pôs um ponto final (parcial) nos sonhos católicos do cineasta, que hoje finaliza “The Irishman”. Graças ao sucesso de “Depois de Horas” (1985), ele pôde retomar o projeto, tendo um nome de maior destaque (Dafoe) como protagonista. Ele havia saído há pouco de “Platoon” (1986), pelo qual concorreu ao Oscar de coadjuvante. Em março, ele volta ao mesmo páreo, concorrendo à estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood por “Projeto Flórida”, ainda inédito por aqui.

Ver ou revisitar “A Última Tentação de Cristo” na telona da Berlinale significa rever a fotografia de Michael Ballhaus em tela grande, em DCP da mais alta qualidade. E significa ainda rever a Maria de Verna Bloom e a sensual Maria Madalena de Barbara Hershey.
Há um ano, quando “Silêncio” foi lançado no Brasil, o P de Pop teve a honra de papear com dona Thelma Schoonmaker, a montadora oficial de Scorsese nas últimas quatro décadas e meia. E ela contou uma história comovente do diretor no calvário do filho do Homem. “Apesar de todo seu talento e do prestígio que tem, Marty sempre fica nervoso quando tem que exibir um filme novo para um diretor que admira. Mostrar seu trabalho a seus mestres deixa ele cheio de medo de que alguém que ama rejeite seu filme. Quando terminou A Última Tentação de Cristo, ele me pediu pra que mostrássemos aquele longa-metragem para o meu finado marido, Powell, a quem ele amava muito. Fizemos a projeção e Marty passou o tempo todo colado na poltrona, em pânico. Quando as luzes se acenderam, Powell estava chorando e olhou para Marty com lágrimas de comoção nos olhos. Você não pode imaginar a expressão de felicidade que Marty fez, sentindo-se aceito, aprovado por seu mestre. Isso tem um nome: generosidade”.