‘Auto do Resistência’: o terror e o tremor ma tela do É Tudo Verdade

‘Auto do Resistência’: o terror e o tremor ma tela do É Tudo Verdade

Rodrigo Fonseca

15 Abril 2018 | 23h07

“Auto de Resistência”: uma aula de montagem no balanço da violência policial no RJ

Rodrigo Fonseca

De um altíssimo quilate seja em sua porção de retratos afetivos (“Neville d’Almeida – Cronista da Beleza e do Caos”), seja em seu segmento poético (“Espera”), a seleta competitiva nacional do É Tudo Verdade 2018 foi avassalada neste domingo por um .doc que alinhava toda a tradição brasileira do formato na reflexão da (in)segurança pública: “Auto de Resistência”. Em relação ao atual estado de coisas (e de crises) da política brasileira, marcada desde 2016 pelo brado “É Golpe!”, o longa-metragem de Natasha Neri e Lula Carvalho está para os anos 2010 como “Wilsinho Galiléia”, de João Batista de Andrade, esteve para a reta final da ditadura militar no país. Assim como o docudrama de Andrade usava a bestialização das periferias para legitimar a institucionalização do Estado Fardado, o ensaio investigativo de Neri e Lula fala – com a ajuda de imagens raras, muitas delas feitas de celular – da morte de moradores de comunidade em intervenções policiais equivocadas. É um estudo sobre práticas de impunidade e exercício de perseverança no pleito pela Justiça. Na tela, o longa bate com engenhosidade dialética, em velocidade maxima, como se fosse um curso de montagem disfarçado de filme. A edição de Marília Morais é febril e ajuda o trabalho de Lula e Natasha a conversar, de modo frontal, com “Notícias de uma Guerra Particular” (1999) e “Ônibus 174”. São filme sobre o Rio, mas que poderiam, hoje, ser entendidos por um sírio como algo muito familiar. Temos um filme que se candidata à História em sua mirada geopolítica crítica e desesperada.