As bossas de uma Berlinale no latido de Wes Anderson

As bossas de uma Berlinale no latido de Wes Anderson

Rodrigo Fonseca

14 Fevereiro 2018 | 15h07

“Ilha de Cachorros”: riso em stop motion

Rodrigo Fonseca
Dublado por medalhões do pop como Bryan Cranston, Scarlett Johansson, Greta Gerwig e Bill Murray, a animação em stop motion Ilha de Cachorros, dirigida pelo texano Wes Anderson, deixa seu rastro por todos os cantos da capital alemã, declarando aberta a temporada 2018 do Festival de Berlim: a maratona cinéfila germânica começa nesta quinta, com a aventura pilotada pelo diretor de Os Excêntricos Tenenbaums (2001). Há pôsters dela por todo lado na cidade. Em 2014, ele cumpriu o mesmo papel com seu O Grande Hotel Budapeste, seu maior sucesso de bilheteria: este, orçado em US$ 25 milhões, foi agraciado com uma receita mundial de US$ 174 milhões, quatro Oscars e um Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri. O desejo da Fox deve ser o mesmo (ou mais) para esta produção ambientada em um Japão com ares de distopia futurista no qual o menino Atari voz de (Koyu Rankin) cata o paradeiro seu cãozinho, sequestrado a mando do governo.

“Transit”, de Christian Petzold

Wes vai disputar o Urso de Ouro de novo, encarando um rol de competidores de alto quilate. Há 19 filmes na disputa. Concorrem com ele o ensaio religioso La Prière, de Cédric Kahn; o suspense Eva, do francês Benôit Jacquot; o drama Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot, do americano Gus Van Sant (com Joaquin Phoenix na cadeira de rodas); o musical de quatro horas de duração Season of The Devil, do filipino Lav Diaz (um ímã vivo de prêmios; e Transit (Alemanha), de Christian Petzold, considerado o maior cineasta da indústria audiovisual germânica na atualidade. Tem ainda outros 14 concorrentes, dos quais quatro são dirigidos por mulheres: delas, a italiana Laura Bispuri é quem chega com maior cacife com Figlia Mia, estrelado por Valeria Golino (de Top Gang).


Para avaliar os concorrentes entra em campo um time de jurados comandado pelo cineasta alemão Tom Tykwer (de Corra, Lola, Corra). Ao lado dele estão a atriz belga Cécile De France; o fotógrafo e curador espanhol Chema Prado; a produtora de Moonlight – Sob a Luz do Luar (2016), Adele Romanski; o músico japonês Ryuichi Sakamoto; e a crítica americana Stephanie Zacharek. Fora de concurso, estão filmes esperados como o terror Unsane, de Steven Soderbergh, e a comédia de época The Happy Prince, dirigido pelo ator Ruppert Everett com base na vida do escritor Oscar Wilde (1854-1900) em uma Londres ainda mais homofóbica do que a de hoje.

Patrícia Pillar protagoniza o drama de tons metafísicos “Unicórnio”

Há uma leva de títulos nacionais e de filmes estrangeiros pilotados por brasileiros em outras mostras, a começar pela disputa pelo Urso, onde há uma coprodução com DNA da América do Sul, misturando genes do Paraguai e do Urugaui: Las Herederas, de Marcelo Martinessi. Dez anos depois de ganhar o Urso berlinense com Tropa de Elite, o diretor carioca José Padilha exibirá seu aguardado thriller 7 Dias em Entebbe na Berlinale Special. No Panorama, entraram: Aeroporto Central, de Karim Aïnouz; Bixa Travesti, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman; Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi; Tinta Bruta, de Marcio Reolon e Filipe Matzembache; e O Processo, documentário dirigido por Maria Augusta Ramos sobre o Impeachment de Dilma Rousseff. No Fórum, escalaram Eu sou o Rio, de Gabraz Sanna e Anne Santos. Para a mostra Generation, que tem o carioca Felipe Bragança (de Não Devore Meu Coração) como jurado, foi convocado Unicórnio, de Eduardo Nunes, com Patrícia Pillar e o sempre genial Zécarlos Machado tendo cenas animadas por Marão em sua narrativa.

Diabo serializado: “Vade Retro”

Na Berlinale Shorts, competem os curtas Alma Bandida, de Marco Antônio Pereira; Terremoto Santo, da dupla Bárbara Wagner & Benjamin de Burca; e a coprodução com Portugal Russa, de Ricardo Alves Jr. e João Salaviza. Haverá ainda projeção de projetos da TV Globo no mercado internacional de séries, com destaque para Vade Retro, com Tony Ramos.

Em 2016, a Berlinale homenageou o fotógrafo alemão Michael Ballhaus (de Os Bons Companheiros). Em 2017, foi a vez da oscarizada figurinista italiana Milena Canonero (de O Iluminado). Agora, na seara das homenagens, o festival vai conceder um Urso de Ouro Honorário pelo conjunto da obra ao ator Willem Dafoe, que, no dia 4 de março, estará concorrendo ao Oscar de Melhor Coadjuvante com Projeto Flórida, ainda inédito em nossas telas. O tributo a ele está agendado para o dia 20, seguido da projeção de O Caçador (2011). Nascido em Appleton, Winsconsin, há 62 anos, Dafoe, que protagonizou O Amigo Hindu no Brasil, entre 2014 e 2015, será visto até dezembro no papel de Vulko, ao lado de Jason Moma, em Aquaman, de James Wan, um dos mais inquietantes diretores de Hollywood na atualidade. Do melhor de Dafoe, a Berlinale pinçou O Última Tentação de Cristo (1988) a ser exibido nesta sexta.

“Yardie”: Idris Elba estreia na direção

Como dois dos concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano saíram da Berlinale 2017Uma Mulher Fantástica, do Chile, e Corpo e Alma, da Hungria, que deu o Urso amarelinho à diretora Ildikó Enyedi -, existem olheiros de Hollywood por todos os corredores deste festival, cançando talentos e promessas. Dos quase 400 títulos que integram a programação total da Berlinale daqui até o dia 25 (data de encerramento tendo como atração final o .doc The Songweriter, sobre o cantor Ed Sheeran), eis algumas apostas de maior badalação na indústria cinematográfica com base no menu:

1) YARDIE: Um dos atores mais aclamados da atualidade, o inglês Idris Elba estreia na direção narrando o périplo de vingança de um jovem jamaicano que, numa “carreira” como traficante na Londres de 1983, tem a chance de uma revanche contra o homem que matou seu irmão;

 

2) LEMONADE: Mais um fruto da primavera romena germina no solo da Berlinale com este drama de Iona Uricaru sobre uma enfermeira que tenta a sorte nos EUA, atrás de um greencard, arrastando seu filho consigo;

 

3) FOREBODING: O mestre asiático do horror Kiyoshi Kurosawa volta ao terreno do fantástico para narrar um prenúncio do fim do mundo: estranhos acontecimentos e a presença de um fantasma apontam a chegada do apocalipse;

 

4) LA OMISIÓN: Um dos realizadores argentinos convocados para Berlim este ano, Sebastián Schjaer narra os conflitos de uma jovem de Buenos Aires que vai tentar a sorte nos confins mais gelados de seu país e lá descobre uma nova chance para amar;

 

5) MATANGI/ MAYA/ M.I.A.: Com direção de Steve Loveridge, este documentário usa arquivos dos últimos 22 anos para narrar a história do Sri Lanka a partir da projeção internacional da cantora M.I.A., do hit Bucky Done Gun.

 

6) VÍRUS TROPICAL: Balanço geracional à moda colombiana do diretor estreante Santiago Caicedo, gestada com suporte dos animadores David Restrepo, Manuel D’Macedo, Carolina Gómez e Felipe Sanin. Seu roteiro e seu visual são baseados na HQ homônima e autobiográfica da cartunista Powerpaola, sobre uma menina que cresce em Quito, no Equador, em meio a um caos depois que o pai, um pastor, abandona sua família;

 

7) GRASS: Onipresente nos grandes festivais de cinema do mundo, o sul-coreano Hong Sangsoo (de Você e os Seus) testa os limites de sua estética palavrosa e glutona em mais uma narrativa rizomática, com a atriz Kim Minhee. Aqui uma jovem acusa um rapaz de ser o culpado pelo suicídio da irmã dela. A acusação é deixa para uma conversação sobre banalidade essenciais ao vazio da vida.