Sexy e marginal, ‘As Boas Maneiras’ uiva para a consagração

Sexy e marginal, ‘As Boas Maneiras’ uiva para a consagração

Rodrigo Fonseca

07 Outubro 2017 | 04h13

Marjorie Estiano encara a beleza de Isabél Zuaa no thriller de horror de São Paulo “As Boas Maneiras”, em concurso na Première Brasil do Festival do Rio

Rodrigo Fonseca
Saí faz pouco de um filme de lobisomem… filme brasileiro… de uma precisão narrativa cirúrgica no exercício da tensão… na conversação com cartilhas clássicas (Sangue de Pantera) e modernas (Grito de Horror) do gênero sinistro no qual foi gerado… na edificação de viradas. As Boas Maneiras chegou ao Festival do Rio 2017 na condição de longa-metragem de abertura da Première Brasil não foi à toa: trouxe consigo lá da Suíça o Prêmio do Júri de Locarno e, lá da França, uma menção honrosa de Biarritz. E cada vitória foi justa e necessária, a julgar pela mandinga que o bruxo Rui Poças (mais ousado fotógrafo ibérico da atualidade) faz com a Lua Cheia, tendo a atriz – e que atriz! – Isabél Zuaa como cavalo para uma pombajira de múltiplas encruzilhadas. Diz o Caetano que, enquanto seu lobo não vem, “vamos passear na floresta escondida, meu amor; vamos passear na avenida; vamos passear nas veredas, no alto, meu amor; há uma cordilheira sob o asfalto”. E, de fato, enquanto o licantropo de garra afiada, boca grande e olho grande vivido pelo ator mirim Miguel Lobo (um achado!) não entra em cena, essa é a travessia que fazemos levados pela mão dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra. Os dois demonstram aqui uma evolução – exponenciada ao risco e ao amadurecimento – da água para o Brunello Di Montalcino numa comparação com o longa de estreia em duo de ambos: o gramsciano Trabalhar Cansa (2011).

Numa estética de garoa fabular nas raias das narrativas mágicas, As Boas Maneiras tem uma metafísica que parece incompatível com o engenho do terror, capaz de evocar o misticismo suarento de Apichatpong Weerasethakul (e a selva ontológica de seu Tio Boonmee) a cada plano, em dois hemisférios nos quais uma aspirante a babá, Clara (Isabél), passa de personagem a pessoa. O primeiro deles, ao norte, frio, porém taquicárdico, acompanha a entrada de Clara num mundo (supostamente) de altíssima classe média, no qual uma jovem grávida cheia de cicatrizes afetivas, Ana (Marjorie Estiano com ares de Nicole Kidman), requer ajuda para cuidar de seu bebê. Tem um troço esquisito que se passa com ela quando a Lua Cheia reina nos Céus. Algo ligado a uma insaciável sede de sangue e a um sonambulismo quase walking dead. Aos poucos, o sucesso de Clara faz com as mulheres – a sequência da cantada nela dada pela usina nuclear cênica chamada Gilda Nomacce é digna de ser adotada – se reproduz na casa da patroa. Ana se deixa a atrair pelo cheiro de Clara e beijos e amassos rolam. Isso até o neném chegar, num engatinhar de sensualidade e mistério que a montagem de Caetano Gotardo equilibra com maestria.

Aí começa o hemisfério dois, mais ao sul do Equador, quente como o ódio e o amor de mãe (os extremos aqui se comungam). Mas desse hemisfério é melhor não se falar muito, para evitar revelações e não estragar “a” Revelação deste bem torneado thriller de assombro: minuto a minuto, Juliana e Dutra fazem valer a vocação do terror num torvelinho de inquietudes que vão do existencial ao perigo físico, esculpindo mulheres com couraças de titânio e cenas de esvaziar o fôlego do peito. E o fazem – amparados no fotômetro de Poças e na direção de arte de Fernando Zuccolotto – sem perder uma finesse que, no filão do horror, talvez só Dario Argento tenha – aliás, evoca muito uma das joias dele, O Pássaro das Plumas de Cristal (1970). É provável que, desde SuperOutro (1989), o Brasil não tenha se arriscado tanto no inusitado quanto esse par de cineastas faz aqui. E o lobisomem é bem feito mesmo. Dá medo. Coisa de adulto…   

 Tem repeteco dele neste sábado às 16h no Odeon, seguido de debate, e no domingo, às 21h30, no Kinoplex São Luiz.