As asas da gaivota de Petra Costa levitam o Canal Brasil

As asas da gaivota de Petra Costa levitam o Canal Brasil

Rodrigo Fonseca

25 Agosto 2017 | 12h04

Rodrigo Fonseca
Fato ou faz de conta, fingimento ou espontaneidade, encenação ou vivência: tudo isso se mistura numa liga inoxidável em Olmo e a Gaivota, produção mais comentada (com expressões do tipo “Que fofo!” ou “Como é lindo!”) entre os documentários (se é que esta é a melhor taxonomia para o filme) revelados pela Première Brasil do Festival do Rio 2015. Melhor filme de sua categoria na ocasião, esta aclamada produção será exibida nesta sexta, às 20h, no Canal Brasil.

Sua exibição, em circuito brasileiro, foi um evento, pois deflagrou um boca a boca dos mais quentes entre os espectadores numa tentativa de: a) decifrar a natureza do dispositivo narrativo armado pelas diretoras Petra Costa e Lea Glob; b) expressar o encantamento diante de uma reflexão sobre as vicissitudes da vida a dois, ou, no caso, a quase três, pela chegada de um bebezinho, batizado na tela de Nino. Seus pais são dois atores do Théâtre du Soleil na França: Olivia Corsini e Serge Nicolai. E a rotina apaixonada deles se rende à chegada do primeiro filho no momento de uma virada profissional para ambos: uma encenação de A Gaivota, de Tchekov, nos EUA. Como Olívia vai fazer, com seu barrigão em expansão e com os riscos de aborto gerados por um hematoma no útero? Essa é a investigação proposta pelo filme, coproduzido pelo ator americano Tim Robbins (de Bob Roberts) e pela Zentropa, lar de Lars von Trier.

O casal de atores que encenam/expõem sua vida a dois em “O Olmo e a Gaivota”

Vitaminada pela fotografia de Muhammad Hamdy, a imersão do longa na intimidade de dois amantes em choque frente ás expectativas do futuro rendeu a Lea e sua colega brasileira (Petra é a diretora do sucesso de público e crítica Elena, de 2012) o prêmio do Júri Jovem no Festival de Locarno, na Suíça, em agosto de 2015, e mais duas láureas no CPH:DOX, da Dinamarca, em novembro de 2014, antes da conclusão do projeto. Na versão exibida no Rio, as realizadoras dão tempo para o público trafegar pela casa (e até pela cama) de Olivia e Serge a fim de nos deixar conhecer como eles dividem os sonhos e as ambições profissionais, como eles pensam o teatro e a própria relação de amor, e como encaram a paternidade. Mas tudo isso é mediado pelo veto iminente de Olívia estar nos palcos, por ordens médicas, em prol do bebê.

“Conheci Olívia um mês antes das filmagens e vi que ela queria fazer um filme comigo, motivada pelo que sentiu vendo Elena”, contou Petra ao P de Pop ao fim da sessão no Festival do Rio, quando encantou a Première pela leveza impressa em sua estrutura narrativa de observação e de sazonais interferências, numa poética envolvente. “Ao nos conhecermos, partir do princípio de que usaria a ficção como moldura para olhar para o cotidiano da vida de uma mulher. No filme, a ficção serve como esqueleto e a carne é a vida”.

Não se sabe, ao certo, onde Olívia está encenando e onde Serge está sendo ele mesmo. São atores. Dois grandes atores, num balé entre o que é íntimo e o que inventado. De concreto há apenas o bebê e a proibição de a atriz pisar no palco durante nove meses. O resto é figura de linguagem: metáfora, metonímia, elipse. Tudo em prol de cenas de romance e renúncia, tendo em sua órbita o satélite Lea e o satélite Petra, que, numa cena hilária, interropem uma D.R. do casal para pedir que eles mudem seu próprio tom de ser. Entre provocações e transcendências, este longa arrebata nosso olhar e nosso peito, com inteligência e ternura.