‘Aos Teus Olhos’ leva a Première Brasil a debater o ódio

‘Aos Teus Olhos’ leva a Première Brasil a debater o ódio

Rodrigo Fonseca

08 Outubro 2017 | 10h33

Instrutor de natação, Rubens (Daniel de Oliveira) é acusado de ter beijado um aluno de sete anos pelo pai do menino, papel que explora todo o talento trágico de Marco Ricca em “Aos Teus Olhos”

Rodrigo Fonseca
É difícil saber, com exatidão, o que se passa na cabeça e no coração do personagem de Marco Ricca no inquietante Aos Teus Olhos, exibido sábado na Première Brasil 2017, em concurso, uma vez que é da natureza esfíngica de composição desse ator tirar do espectador qualquer certeza, levando-o a imersão numa terra pantanosa onde todos os sentimentos são fluidos e comburentes. Mais ou menos como é a piscina que serve de cenário – e de metonímia – a este filme. Um filme tenso (na montagem-gangorra de Sergio Mekler) sobre a mecânica do ódio em rede (social). Filme que usa uma hipótese de pedofilia como gatilho para um debate sobre outro desejo que não o sexual: o tesão da opinião… a opinião que cala a do próximo. E nesse dispositivo, esta releitura brasileira da peça O Princípio de Arquimedes (2011), do catalão Josep Maria Miró faz ferver a temperatura autoral da obra de Carolina Jabor, revelando um traço temático e narrativo que já se fazia notar em seu afrodisíaco Boa Sorte (2014): o interesse pelo limite da tolerância. Tem ecos disso em O Mistério do Samba (.doc codirigido por Lula Buarque de Hollanda exibido em Cannes em 2008): o lirismo portelense é a resistência à perda de poesia da Madureira idílica com a violência suburbana. Mas aqui o eco tem reverberações mais desconjuntantes, gravitando da suspeita ao revanchismo bruto numa estética que lembra cinema polonês (é Não Matarás na veia).

Durante a tensa projeção no Lagoon, onde um pigarro (ou o ronco de um velhinho na fila I da sala 1) soava como um terremoto frente ao silêncio da imersão, o público se dividia no gramado dramatúrgico regado pelo roteiro de Lucas Paraíso entre a seleção Daniel de Oliveira e o escrete Marco Ricca. É difícil saber em qual angústia apostar: se na do pai (Ricca) obrigado a tomar uma atitude extremada – mesmo sem ter certeza do que a motiva – diante da hipótese de seu filho de sete anos ter sido beijado pelo professor; ou se na do tal instrutor (Daniel, com um olhar de assombro à la Jean-Louis Trintignant em Um Homem, Uma Mulher), acusado pela sociedade de pedófilo. Entre os dois atores, vemos um baile de dribles. O bailado ganha uma dimensão quase filosófica conforme vamos percebendo imperfeições e falhas trágicas de cada um. O pai é um machista ausente na criação do filho, mas amoroso ao extremo ao ser confrontado com feridas em sua cria. O ás da natação tem na vaidade apavonada e no olho faminto sobre garotinhas de shortinho seus pontos fracos.

Longa-metragem demarca a potência autoral de Carolina Jabor na direção e a maturidade de Lucas Paraíso no roteiro

Numa alquimia rara de se ver entre diretora e roteirista, vemos uma comunhão a mais nos personagens que se extremam: ambos tem mulheres de fibra, de ação, que não se rendem ao eclipse da dúvida. E essas figuras femininas valorizam as participações de Luísa Arraes e Stella Rabello (um achado), ambas farpadas como o arame que separa seus amados do insólito do mundo. Falando em mulheres, Malu Galli tem apoteoses no papel da diretora do clube esportivo onde o possível abuso sexual se deu. Com uma inteligência no domínio da pressão que evoca sua performance teatral em Nômades, encenada aqui em 2015, Malu é o ponto de contato da incerteza da ficção com a nossa incerteza de espectador. É ela quem vem humanizar um fio explosivo de acusação e de culpa imputada que o roteiro alimenta num jogo com as redes sociais. Na linguagem, Carolina carrega o filme de recursos gráficos de diferentes mídias, sobretudo o vicioso “zap-zap”, no qual Paraíso presta uma homenagem (merecida) à sua tutora: a crítica de teatro e professora da PUC-RJ Claudia Chaves, uma das mais agudas analistas da mediocridade nossa de cada dia, citada (com humor) entre os nomes que cobram justiça contra o professor. É o Real invadindo a fábula, num projeto que contou com o acompanhamento de um ourives do drama: George Moura (de Redemoinho).

E fábula aqui é um termo justo, pois trata-se de uma jornada em busca de uma moral. É uma jornada que a cineasta (inteligentemente) não limita a um clímax, mas sim dilui por todo o longa. A diluição se dá seja mostrando a traição do mais próximo colega do professor (papel dado a Gustavo Falcão), seja num inquérito onde plano e contraplano saem das CNTPs do nosso cinema pelo ritmo da edição. A presença da Lei, na figura de um investigador interpretado (na medida precisa de ironia) por Rodrigo dos Santos, dá a deixa de que a moral (e não a ética) é soberana aqui. E a moral é fluida. E se alimenta    

de impressões. Por isso, este M – O Vampiro de Düsseldorf subtropical não vai para o flanco do expressionismo e sim do sensacionalismo mais espetaculoso, que agride como forma de se fazer ver.

 

Se em Boa Sorte, um menino ficava invisível para se fazer enxergar, aqui, Carolina dá visibilidade absoluta a impaciências que nos impedem de refletir sobre o que vemos, aceitando a imagem pronta. Diferentemente do sublime A Caça (2012), de Thomas Vinterberg, com quem compartilha patologias, aqui os fatos não absolutos. Talvez só um: a convulsão histérica de se fazer das redes sociais um campo de guerra e não espaço de troca. Lugar de falar virou plenária de acusação. Esse é o conflito de nossa Contemporaneidade. Um conflito agora… aos teus olhos