Anima, Tiradentes!

Anima, Tiradentes!

Rodrigo Fonseca

24 Janeiro 2016 | 16h43

Laureado com 30 prêmios,

Laureado com 30 prêmios, “Até a China” é um relato com o shoyo do bom humor sobre a incursão de Marão pela Ásia

Imersa na 19ª edição de sua mostra anual de cinema, Tiradentes vai viajar pela Ásia nesta segunda-feira (25/1), de carona em um dos filmes brasileiros mais premiados da atualidade, o curta-metragem carioca Até a China, de Marão. Desde sua primeira exibição pública, em maio de 2015, quando ganhou o prêmio de melhor curta no Cine PE, em Recife, a produção de 15 minutos já correu cem festivais pelo planeta afora, contabilizando 30 prêmios. Seu rol de vitórias, neste momento no qual a animação nacional está na boca do Oscar com O Menino e o Mundo, consagra ainda mais a reputação autoral de Marão, que, aos 44 anos, prepara seu primeiro longa-metragem: Bizarros Peixes das Fossas Abissais. De quebra, enquanto prepara os desenhos deste projeto sobre uma super-heroína cuja região glútea se transforma em um macaco, ele já desenvolve o roteiro de um outro longa, de timbre existenciais: O Elevador.

“A consagração merecida de O Menino e o Mundo e de seu realizador, o Alê Abreu, fez muito bem a todos nós, animadores brasileiros, não apenas por respeito e admiração a ele, mas pelo fato de ter interferido positivamente na nossa atividade”, diz Marão, um duretor-autor com 13 curtas no currículo. “O sucesso internacional dele garantiu um retorno de conversas entre nós e o mercado acerca da produção de filmes animados de longa metragem que não sejam repetições de fórmulas americanas. A animação autoral hoje é viável. Durante quase dez anos, entre o fim dos anos 1990 e a deácad de 2000, ficamos restritos à produção de curtas. A partir de 2007, um edital para a TV fomentou a produção de séries animadas. Agora, hoje, o êxito estético do Alê e de outros projetos nacionais premiados lá fora apontam para um próximo passo. Agora, profissionais que antes estavam limitados à produção de séries infantis televisivas podem ser redirecionados para longas autorais que demandam excelência narrativa”.

Prêmio de melhor curta pelo júri popular do Festival do Rio, em 2015, Até a China será projetado na programação da Mostra deTiradentes às 21h desta segunda, com fôlego para ser premiado uma vez, por júri popular. De tintas antropológicas autobiográficas, sua trama é baseada na aventura do próprio diretor em solo chinês, quando foi exibir curtas para uma plateia de olhinhos puxados.

“A princípio, eu queria contar essa história em forma de HQ, por achar que ela era pessoal e específica demais para ser um filme. Mas acabou rendendo um curta com as minhas memórias e impressões de um país que eu conhecia apenas superficialmente, pelo cinema. E o resultado que tive com Até a China tem sido surpreendente porque eu nunca havia sido premiado dessa forma. No passado, desenhos animados tinham mais chance de ganhar prêmios de júri popular em festivais que exibem diferentes formatos. O resultado que eu tive mostra que está havendo uma mudança de olhar”, diz o cineasta, egresso de Nilópolis (RJ).

Raro representante de Nilópolis nas telas nacionais, Marão é um ímã de prêmios com seu cinema a um só tempo escrachado e fofo

Raro representante de Nilópolis nas telas nacionais, Marão é um ímã de prêmios com seu cinema a um só tempo escrachado e fofo, que começa a migrar para os longas

Seu maior rival em Tiradentes é a produção mineira Bili com Limão Verde na Mão, um curta musical animado com direção de Rafael Conde, um dos mais renomados cineastas de MG. A versão de Conde para a trajetória de uma menina que se despede da infância arrancou aplausos calorosos e gotas de choro de uma mostra conhecida por sua aposta no radicalismo de linguagem. Bili é, até agora, o filme mais ousado entre os títulos já exibidos no festival mineiro em 2016. Minas volta a animar retinas por aqui com O Quebra Cabeça de Tarik, de Maria Leite, agendado para quarta. Sábado que vem, Tiradentes projeta a animação gaúcha Vento, de Betânia Furtado.

Ansioso pela projeção de Até a China em Tiradentes, Marão finaliza agora mais um curta: O Último Engole-Ervilha 2, reunindo um coletivo de 14 animadores, incluindo nomes premiados como Rosana Urbes (Guida) e Wesley Rodrigues (Faroeste).

“De todos os filmes da série Engole-Ervilha, este é o que mais tem animadoras, mostrando o crescimento do número de mulheres cineastas no país”, diz Marão, que sonha dar a seu longa de estreia um título mais ousado. “Quero que Bizarros Peixes das Fossas Abissais passe a se chamar Minha Bunda é um Gorila, fazendo jus ao que é o enredo. Mas não pude usar esse nome nos editais, pois eles não aceitam palavrões”.

“Animal Político”: uma vaca pernambucana na Aurora de Tiradentes e na mira dos aplausos de Roterdã

Nesta segunda, começa a seção competitiva de Tiradentes, chamada Aurora, na qual concorrem sete longas: Aracatide Aline Portugal e Julia de Simone (RJ/CE); (o esperadíssimo) Animal Político,de Tião (PE); Taego Ãwa, de Marcela e Henrique BorelaBanco Imobiliáriode Miguel Antunes RamosFilme de Aborto, de Lincoln PeresJovens Infelizes ou Um Homem Que Grita Não É Um Urso Que Dança, de Thiago B. Mendonça; e (o primeiro em ordem de projeção) Índios Zoró – Antes, Agora e Depois, de Luiz Paulino dos Santos (PE). O encerramento da Mostra será no dia 30, quando serão conhecidos os ganhadores. Em paralelo, a cidade vai ser sacudida por uma projeção do thriller de suspense paranaense Para Minha Amada Morta, pérola dirigida por Aly Muritiba, coroado com o troféu Silver Zenith noFestival de Montreal, no Canadá, por sua excelência narrativa.

p.s.: Com grande alegria, nosso peito cinéfilo se encheu de alegria ontem frente a vitória da comédia A Grande Aposta (iThe Big Short), de Adam McKay, na entrega do Producers Guild Awards, no sábado, deixando no rastelo a bobagem Spotlight – Segredos Revelados. O resultado pode indicar novos caminhos para a corrida pelo Oscar. Mas como O Regresso, de Alejandro González Iñárritu, bombou nas bilheterias neste fim de semana nos EUA, enchendo os cofres dos exibidores com US$ 16 milhões em três dias, sua campanha por prêmios segue cada vez mais sólida, o que pode garantir uma merecida estatueta para Leonardo DiCaprio.

Christian Bale tem atuação memorável em “A Grande Aposta”: o longa favorito do Producers Guild of America

p.s.2: Em meio ao zumzumzum causado pela estreia de Os Dez Mandamentos, o parque exibidor brasileiro pode acabar deixando algumas das melhores estreias da semana que vem desvalidas de atenção. A mais preciosa dela é Trumbo – Lista Negra, na qual o diretor Jay Roach confirma que Bryan Cranston é muito (mas muito) mais do que Walter White em Breaking Bad. O ator vive seu momento Al Pacino à frente desta reconstituição histórica da luta do roteirista e cineasta Dalton Trumbo (1905-1976) por liberdade de expressão. Trumbo dirigiu o antológico Johnny Vai à Guerra, de 1971.

p.s.3: Uma virada da pesada pode acontecer com Eddie Murphy. Em baixa em sua trajetória de comédias desde o fracasso de Mil Palavras (2012), o astro ensaia uma volta por cima, pelas vias do drama, com Mr. Church, do australiano Bruce Beresford (diretor do oscarizado Conduzindo Miss Daisy). Na trama, ele vive um cozinheiro que, ao longo de 15 anos, torna-se o esteio emotivo de uma órfã rica.