Amém, Wim Wenders! O .doc sobre o Papa é uma obra-prima

Amém, Wim Wenders! O .doc sobre o Papa é uma obra-prima

Rodrigo Fonseca

13 Maio 2018 | 21h14

Rodrigo Fonseca
Ecumenismo e geopolítica sorvem, juntos, a hóstia do cinema no novo longa-metragem de Wim Wenders, Papa Francisco – Um Homem de Palavra, que foi o único dos títulos do 71º Festival de Cannes, até agora, a ser chamado de obra-prima nos papos de corredor. É um dos mais fortes candidatos ao troféu L’Oeil d’Or, a Palma dos documentários na Croisette, criada em 2015. E merece ganhar não apenas por sua dialética necessária ao olhar o Catolicismo e a arte da caridade, mas, sobretudo, por sua engenharia narrativa de comunicação direta, curta e fina com espectadores, sejam cinéfilos ou não. Arejado por sazonais cenas de ficção de tom expressionista, Pope Francis – A Man of His World (título original) tem tudo para ser um sucesso de bilheteria como é comum à obra documental do realizador alemão, vide Buena Vista Social Club (1999) ou Sal da Terra (2014). No Brasil, se vier com cópias dubladas (Élcio Romar dublaria bem pacas o Papa), vai fazer ainda mais barulho no circuito. No filme, numa citação da Bíblia, o argentino hoje responsável por pastorear almas a partir do Vaticano lembra que não se pode servir a dois patrões: “Ou você segue os desígnios de Jesus ou segue o Capital”. Fala-se de machismo, de pedofilia de padres, de racismo, de refugiados políticos e de poluição nesta cartografia da responsabilidade nossa de cada dia. Cannes segue firme e forte até o dia 19, tendo 3 Faces, do iraniano Jafar Panahi; e Cold War, do polonês Pawel Pawlinowski, como seus melhores filmes. O italiano Lazzaro Felice, do qual muito se esperava, frustrou geral com sua aposta cega na etnografia da miséria.