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Algo de novo no front da ação, de ‘Hardcore Henry’ a ‘Mundo Cão’
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Rodrigo Fonseca

13 Março 2016 | 15h02

"Hardcore Henry": primeira pessoa do singular

“Hardcore Henry”: primeira pessoa do singular

Em conflito eterno com a correção política, que fez expirar o prazo de validade da era dos exércitos de homens só, o cinema de ação busca uma reinvenção, lá fora e aqui, indo, para se renovar, à instância sensorial das narrativas em primeira pessoa com o esperado Hardcore Henry, de Ilya Naishuller. Laureada com o prêmio de júri popular no Festival de Toronto, em setembro, a produção se lança como um sopro de inovação no formato “balas e tiros” ao incorporar como dispositivo uma estrutura típica de games como Call of Duty ou Counter Strike, na qual a câmera simula o olhar do protagonista, um sujeito chamado Henry, baleado e sem memória, que almeja saber por que todos o querem morto em uma Moscou hostil e mafiosa. Essa é dinâmica de inovação lá nos states, para deleite de Hollywood. Mas tem novidade no Brasil, com o feérico Mundo Cão, que radiografa a epidemia de hidrofobia que o Estado não foi capaz de conter no trâmite das forças paralelas criadas pela corrupção.

Neném (Lázaro Ramos) é um ex-policial corrupto no controle de uma gangue ligada a caça-níqueis em "Mundo Cão"

Neném (Lázaro Ramos) é um ex-policial corrupto no controle de uma gangue ligada a caça-níqueis em “Mundo Cão”

Exercício pop de microfísica do Poder, aplicado ao âmbito mais cotidiano de nossa sociedade, Mundo Cão chega ao circuito nesta quinta-feira confirmando (e depurando) o talento narrativo que o diretor paranaense Marcos Jorge nos revelou em Estômago (2007), mas também driblando uma idiossincrasia da cinematografia verde e amarela. Nos momentos finais da edição 2016 do Rio Content Market, o maior evento brasileiro sobre as tendências do mercado audiovisual, encerrado sexta-feira, o cineasta Carlos Diegues citou, durante um colóquio, uma pesquisa acerca da predileção do povo deste nosso tumultuado país por filmes de ação, alçando o gênero ao pódio da preferência nacional. A questão levantada pelo diretor de Chuvas de Verão (1977) é a dificuldade que temos, apesar dessa predileção, em fazer um exemplar 100% brazuca do filão adrenalina chegar ao topo das bilheterias. Jorge tem esse abacaxi para descascar.

Babu Santana trabalha no controle de zoonoses

Babu Santana trabalha no controle de zoonoses

Antes, ele debruçou-se sobre o ambiente carcerário, onde apontava tensões típicas de uma pirâmide social: na base, estão os prisioneiros mais desvalidos economicamente – e os mais “bovinos”, controláveis -, enquanto no topo, vão os “xerifes” de cadeia, os “bichos soltos”, que controlam as finanças do crime. Agora, o cineasta vai para São Paulo, nos subúrbios da maior metrópole do país, para narrar uma trama de vingança, aplicando de novo essa sua (sócio)lógica de estratificação populacional, dividindo-se entre dois extremos. De um lado, está um funcionário do Departamento de Controle de Zoonoses (vulgo Carrocinha): Santana (Babu Santana, em atuação irretocável); do outro, um ex-policial corrupto, que hoje ganha aos tubos sendo um barão do negócio de caça-níqueis, Neném (Lázaro Ramos, preciso no limite entre a vilania e docilidade). Santana captura o cachorro perdido de Neném. Inconformado, o bandido vai raptar o filho mais novo de seu algoz. Este é o incidente incitante para deflagrar dramaturgia e sociologia – das boas.

No embate entre essas duas figuras, Jorge expõe (e discute) os diferentes níveis do descontrole da segurança em espaços urbanos. E a discussão está em sintonia com reflexões recentes do cinema latino, como o mexicano Zona do Crime (2007), de Rodrigo Plá, o chileno Matar a un Hombre, de Alejandro Fernández Almendras, e mesmo a joia argentina Relatos Selvagens, de Damián Szifrón, com quem ele se relaciona de modo mais frontal, mesmo na forma.

A montagem aumenta a tensão do longa de Marcos Jorge

A montagem aumenta a tensão do longa de Marcos Jorge

Na obra ainda curta de Jorge, vitaminada pela parceria criativa com o roteirista Lusa Silvestre, há sempre dois hemisférios que colidem e se digladiam numa oposição de forças de início desleal. Em Estômago, um prisioneiro dócil, obediente, passa por uma educação pela pedra nas mãos de um chefe do crime até passar de cordeirinho a ave de rapina. Em Corpos Celestes, de 2009, codirigido por Fernando Severo, um físico que desaprendeu a amar é confrontado com a criança amorosa que um dia foi para se reinventar: isso põe passado e presente em xeque. E em seu último longa, O Duelo, de 2014, um marinheiro especializado em bravatas se arrisca em uma queda de braço contra um contador de histórias profissional: é a luta da anedota contra o factual.

Reverberando em timbres de suspense, Mundo Cão se esgueira por veredas similares: reiterando assim um caminho autoral. Só que aqui o caminho é ampliado por maior ambição visual. Planos exuberantes da paisagem paulistana, dos subúrbios ao centro da metrópole (sobretudo o de um estádio lotado para um partida do Palmeiras), alimentam o filme na fotografia precisa de Toca Seabra. A partir dela, desenha-se na tela a rivalidade entre dois homens, que vai além do medo e da razão, num enredo que gravita da tragédia ao humor negro, encontrando harmonia e retidão na edição, em sua montagem capaz de enervar. O roteiro de Lusa transita pelo melodrama em vários momentos, sobretudo naqueles em que Dilza (Adriana Esteves), a mulher de Santana, é conduzida ao limite máximo da dor como uma consequência dos planos de Neném. Mas este trânsito jamais tira o longa dos trilhos do thriller, nem enfraquece seu manuseio da tensão – crescente do começo ao fim.

De um lado, a Mancha Verde; do outro, manchas de sangue

De um lado, a Mancha Verde; do outro, manchas de sangue

Os personagens de Mundo Cão são produtos de uma desarticulação moral que cresceu para além dos conjuntos habitacionais e favelas flagrados em Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007) para se concentrar na faixa intermediária, entre morro e asfalto, já patrulhada pelo precioso Os Inquilinos (2009), de Sérgio Bianchi. O acerto de Jorge é discutir esta desarticulação sem incorrer em senso paternalistas, usando o maniqueísmo como um aliado, sem se render a ele: aqui, nem todo herói é 100% bom, e o mesmo vale para Neném. O Brasil de Jorge e Lusa não é preto no branco: mas essa zona cinza que o país se torna pode causar danos irreparáveis à saúde se encarada sem a devida lucidez (leia-se senso de humor). Gol da dupla.

"Dois Caras Legais": EUA 1970

“Dois Caras Legais”: EUA na década de 1970

Já que o papo enveredou pela ação, em fronteiras inusitadas, fiquemos ligados em Dois Caras Legais, de Shane Black, com Russell Crowe e Ryan Gosling investigando o assassinato de uma atriz pornô nos EUA dos anos 1970. Promete!

 

 

 

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