‘Afterimage’, um adeus de Wajda, à altura de sua nobreza

‘Afterimage’, um adeus de Wajda, à altura de sua nobreza

Rodrigo Fonseca

16 Agosto 2017 | 14h01

Andrzej Wajda (1926–2016) no set de “Afterimage”, seu canto do cisne, que estreia quinta no Brasil

Rodrigo Fonseca
Sempre acompanhado por uma intérprete para dar conta de seus desafios com a língua inglesa e deixá-lo livre para falar seu polonês de berço, Andrzej Wajda finalizou em 6 de outubro de 2016 uma travessia de 90 anos por esta vida. Nela, dedicou-se de 1950 a 2016 à direção de filmes, fossem curtas ou fossem longas, indo de exercícios de leveza (tipo O Gordinho) a obras-primas como O Homem de Ferro, pelo qual ganhou ganhou a Palma de Ouro em 1981. Ícone no uso estético da consciência política entre os cineastas revelados da década de 1950 em diante, ele deixou como canto de cisne um tratado sobre a liberdade de expressão, Afterimage, que estreia quinta no Brasil. Narrativa daquelas de sufocar, pela alta temperatura e pela desmesura na pressão, o filme discute censura e opressão simbólica ao recriar o périplo do pintor Wladyslaw Strzeminski (vivido com madura sisudez por Boguslaw Linda) para liberar suas cores em suas telas, isento da obrigatoriedade de flertar com o realismo social. Ao largo do carisma de Boguslaw, salta aos olhos o rigor dos enquadramentos do cineasta em seu retrato para uma Polônia refém da ortodoxia stalinista, carente de altruísmo.

Existem rasgos de melodrama (como na cena em que a empregada do artista recolhe sua sopa, em protesto pelo atraso de seu salário) que diluem ocasionais pigmentos brechtianos de distanciamento. É um filme de panfleto, mas sóbrio, seco e doído, como era comum à ideologia artística do diretor, aclamado mundialmente por sucessos como Danton – O Processo da Revolução (1983) e O Homem de Mármore (1976). Em seus últimos anos, ele cruzou com o P de Pop em Cannes e explicou:

“Política não é uma forma de arte e sim um meio de se entender as contradições da sociedade – um meio que, se usado com sabedoria, não corre o risco de comprometer valores artísticos de um discurso, seja fabular ou realista”, disse Wajda. “Fazer um filme comprometido com o debate não pode, nunca, levar um filme a ficar chato. Os filmes devem ser vivos, devem despertar o desejo, devem tornar a política algo desejável de ser decifrado”.

O pintor pintor Wladyslaw Strzeminski (vivido por Boguslaw Linda) defende sua integridade estética na Polônia stalinista

Em 2000, ele integrou o júri do Festival de Berlim e lá viveu uma anedota. Na ocasião, o evento custou a surpreender os jurados com um grande filme, digno do Urso de Ouro, até que surgiu Magnólia, de Paul Thomas Anderson. Logo após a projeção desse filme-coral do realizador de Boogie Nights (1997), ele se reuniu com seus colegas para decidir o ganhador do prêmio e socou a mesa da Berlinale, dizendo palavras em polonês. Os jurados, curiosos, pediram para a tradutora que fizesse a versão. E ela, também socando a mesa, imitando o mestre, disse “This is finally Cinema”, ou seja, “enfim temos Cinema”.  É a coroação de uma vida de amor à arte de fazer filmes.