Abutres e réus na corte de Denzel Washington

Abutres e réus na corte de Denzel Washington

Rodrigo Fonseca

11 Fevereiro 2018 | 13h52

Denzel Washington estrela “Roman J. Israel, Esq.”, um drama com estética à la anos 1970 sobre predatismo e Lei

Rodrigo Fonseca
Boa atuação é uma coisa; bom personagem é outra: há uma interligação, mas há existe uma independência entre esses conceitos, que, vez por outra, conjugam-se de modo simbiótico, como Walter White/Bryan Cranston ou Gal Gadot/Mulher-Maravilha. E é esse também o caso do advogado esquisito, de ethos à moda antiga, vivido por Denzel Washington no virótico drama (com lampejos de thriller) Roman J. Israel, Esq., pelo qual ele concorre a um merecidíssimo Oscar de melhor ator. Esta estatueta já tem um dono este ano: Gary Oldman, pela composição de Winston Churchill em O Destino de uma Nação. Mas o desempenho de Denzel é uma companhia honrada para Gary nessa competição, dada a paleta de cores com a qual o astro de Dia de Treinamento (2001) tinge a figura de Roman nesta produção de US$ 22 milhões cujo faturamento global mal saiu dos US$ 11 milhões. Aliás, poucos foram os filmes de efetivo sucesso comercial (Corra!, Viva, Dunkirk) na cerimônia de 2018 da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, agendada para o dia 4. Cifras à parte, o que interessa mais na produção estrelada pelo eterno muso de Spike Lee é o fato de ela nos legar o personagem mais controverso, complexo e rico deste Oscar, afirmando, a partir dele, a identidade autoral do diretor Dan Gilroy, roteirista do cult Freejack: Os Imortais (1992).      

 Gilroy retoma aqui uma trilha de ética que abriu, na direção, em O Abutre (2014): há um limite de tolerância entre o dever e a satisfação (realização) pessoal que, se torcido nas franjas do submundo, há de gerar um passivo de dívidas incontornável. Em seu filme supracitado, centrado na imprensa sensacionalista, apoiado em Jake Gyllenhaal, tínhamos um limite tênue entre ambição e insanidade, assumindo o predatismo como uma condição inerente ao Homem. Lá, autossobrevivência e maldade eram guardadas na mesma gaveta. Aqui não, aparentemente… advogado com quase quatro décadas de ofício, Roman é um homem bom, que luta para fazer a Lei ajudar os oprimidos. O , Esq. em sua assinatura é uma distinção de sua formação de jurista. Mas existe uma alma de predador nele também. Basta um empurrão para ela sair. O empurrão vem seja pelo descaso de seus colegas diante de seus ternos de milnovecentoseantigamente ou pela provocação de uma feminista durante um debate num centro comunitário no qual ele dá um pito em rapazes que não oferecem seu lugar a moças em pé. Mas vem… E aí temos uma virada que encaixa o filme num pêndulo de emoções vertiginosas, indo da reflexão social ao suspense.

O mesmo se dava com O Abutre. Mas, aqui, a maestria de Gilroy na condução dos planos é maior… beeeeeem maior, apoiado numa trilha sonora dos anos 1970, que embala toda a narrativa, como um bálsamo para a ladainha de lamentos que cruza o caminho de Roman, em seus dias de bom moço. Os planos são curtinhos, muito bem encadeados numa edição ágil, mas nunca histérica, amparada pela habilidade singular que o diretor tem de voltar, sempre que avança demais na intriga, retrocedendo para a condição humana do protagonista E dos coadjuvantes em sua volta. Não há como explicar o fato de Colin Farrell não estar disputando o Oscar também por sua atuação na pele de George Pierce, o novo chefe de Roman. E é ele quem assume a firma em que o personagem de Denzel trabalhou por 30 e muitos anos usando fichas de papel em vez de arquivos digitais. Impressiona – e muito – também o desempenho de Carmen Ejogo como Maya, o objeto do interesse do velho advogado.


Atento aos códigos narrativos do cinemanovismo americano dos anos 1970, Gilroy cria a interação entre essas pessoas inspirado por narrativas secas e distanciadas da Nova Hollywood, trazendo à cena dispositivos similares aos que Sidney Lumet (1924-2011) usou em O Veredicto (1982), tendo Denzel como seu Paul Newman. O que menos importa em Roman J. Israel, Esq. são os casos por este defendidos: importa o sujeito por trás de uma concepção vetusta (mas necessária) de Justiça. Filmaço.