‘A Bruxa’, um manifesto feminista que dá medo (muito) e assombro político

‘A Bruxa’, um manifesto feminista que dá medo (muito) e assombro político

Rodrigo Fonseca

05 Março 2016 | 03h28

Produção de US$ 3,5 milhões,

Produção de US$ 3,5 milhões, “A Bruxa” rendeu o prêmio de melhor diretor a Robert Eggers em Sundance, em 2015

Mais do que ser um marco do terror contemporâneo, lapidado a cinzel visualmente a partir de enquadramentos de uma meticulosidade milimétrica, A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale) é um manifesto político de afirmação do Feminino. Sob brumas que evocam a tradição sobrenatural dos filmes da Hammer e mesmo Suspiria, do bacante Dario Argento, o longa-metragem de Robert Eggers é uma alegoria uterina capaz de expressar, em sua viagem pelo pântano da fantasia, todos os traumas da submissão das mulheres. Produzido pela cia. paulistana RT Features de Rodrigo Teixeira, com DNA americano, brasileiro, canadense e inglês, este horror filmado ao custo de US$ 3,5 milhões virou o filme da moda no Brasil. Os ingressos se esgotam em sessões abarrotadas tanto de fãs do Além quanto de não iniciados nas assombrações, aquecidos por um boca a boca inflamado por opiniões opostas, no “ame-o ou odeio-o” típico de cinema de gênero que extrapola o filão ao qual se filia. Se dá medo? Dá… e muito, com sua mecânica de susto e sangue, precedida de preliminares psicanalíticas, na qual o rosto devastado de desilusão da personagem Katherine (Kate Dickie) já é um espanto em si. Mas o pânico é só uma fatia deste suculento fruto da atual safra indie dos EUA.


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Ganhador de um merecido prêmio de melhor direção em Sundance em 2015, A Bruxa respeita os cânones clássicos do terror, entregando ao espectador aquilo que mais se espera desta linhagem – ou seja, sustos – mas o faz caminhando por uma selva de signos quase animais da masculinidade e da feminilidade. Atuações primorosas, sobretudo a da Lolita Anya Taylor-Joy, alternam espaço com um personagem para entrar na História das Trevas: Black Phillip, sobre o qual não se pode falar muito. Porém, o que mais rende solidez ao filme é a reflexão nas entrelinhas sobre a opressão das mulheres, ao longo dos séculos, caracterizada a partir de uma Nova Inglaterra (de cores lavadas) de excomunhões, paganismos e de feitiçarias do século XVII. Eggers caminha na referência de dois pensadores cinematográficos da Fé e do ardor das fêmeas – o Ingmar Bergman de A Fonte da Donzela e o Carl Theodor Dreyer de A Palavra – para fazer uma metafísica da culpa e do revanchismo.

Personagens vivem à sombra da submissão

Personagens vivem à sombra da submissão à Fé e ao Medo

Microcosmo de abnegações e fanatismos, a Massachusetts de 1630 vira palco para a Alegoria da Caverna de Eggers, de onde só as mulheres esclarecidas saem, iluminadas pela certeza do próprio desejo. O eixo desta bolandeira é a jovem Thomasin (Anya, numa interpretação carregada de sedução) que, durante um passeio da floresta, vê seu irmão bebezinho ser raptado, numa fração de piscar de olhos. Vemos uma criatura correr com o neném no colo pelas matas, mas não dá para perceber bem quem é o/a raptor/a. Dali pra diante, uma sucessão de mazelas vai se abater sobre a família de Thomasin, envolvendo elementos rústicos e silvestres, como os chifres de um bode preto e o bico de um corvo. No ebó cinematográfico de Eggers, paus e pedras são ferramentas para nos lembrar de que do pó viemos… mas nem todos a eles voltaremos. Pelo menos não as mulheres que souberem usar o sexo como um instrumento de sua própria soberania sobre o corpo e a sabedoria como arte de enganar.

Nesta era de difficult men, ou seja, de homens fragilizados e emasculados, A Bruxa entra em sintonia com todos os discursos da correção política, exercitando-a com elegância, sob o disfarce de um terror que tenta espelhar as lacunas da alma. Um terror que dá frio na espinha, mas não congela o pensamento. Filmaço!