‘7 Dias em Entebbe’: inédito de José Padilha estreia nos EUA

‘7 Dias em Entebbe’: inédito de José Padilha estreia nos EUA

Rodrigo Fonseca

14 Março 2018 | 18h02

Eddie Marsan (ao centro) vive Shimon Perez em “7 Dias em Entebbe”, de José Padilha: polêmica Israel x Palestina

Rodrigo Fonseca
Veio de um defensor das causas políticas dos excluídos no Velho Mundo – Mahari Seghid, da Radio African Refugees – a frase que melhor definiu 7 Dias em Entebbe, de José Padilha, um ímã de polêmicas no último Festival de Berlim: “Este filme ainda vai fazer muito barulho pelo mundo”. Se essa profecia do veterano radialista vai colar ou não só saberemos a partir desta sexta-feira, quando o thriller baseado em fatos reais, ambientado em Uganda, em julho de 1976, pilotado pelo realizador de Tropa de Elite (2007) estreia nos EUA. O cineasta está neste momento no Rio de Janeiro para o lançamento do seriado O Mecanismo, que desenvolveu para a NetFlix, com Selton Mello enfiado numa trama sobre a corrupção no Planalto. Mas Brasília não passa nem perto do longa-metragem de língua inglesa que o diretor de Ônibus 174 (2002) lança neste fim de semana após uma inflamada estadia na Berlinale, onde dividiu opiniões. Nem todo mundo recebeu a produção baseada no  conflito Israel x Palestina com o mesmo carinho que Mahari. Este afirmou: “Em termos técnicos, o acerto do Padilha é de 100%; e, em termos éticos, ele conseguiu, com felicidade extrema, abordar o conflito de todos os pontos de vista, sem deixar nada de fora”.

Em seu enredo, os terroristas alemães Brigitte (uma inspiradíssima Rosamund Pike) e Böse (Daniel Brühl) forçam o pouco de um avião da Air France da rota Tel Aviv – Paris, lotado de israelenses na tripulação. A exigência: trocá-los por palestinos que estão mantidos presos, alguns sob tortura. Acostumado a dialogar com registros documentais em seus cinema campeão de bilheteria, o diretor de 50 anos optou por outro referencial das artes – a dança. Ele usa um balé contemporâneo calçando toda a sua narrativa com um espetáculo que traduz a inquietação do Oriente Médio no prisma israelense.

O diretor carioca e seu elenco em debate na Berlinale 2018

Na ala da crítica que não gostou do filme, os motivos oscilam entre o uso de câmera lenta das cenas de ação e o tratamento acusador à política israelense, sobretudo na figura estrategista de Shimon Peres, vivido por Eddie Marsan. Ao fim da projeção da imprensa, houve quem gritasse: “Que diálogos são esses? Ridículos…”. E houve quem se incomodasse mais com o desenho político do longa-metragem, que estreia em março nos EUA. “Padilha filma muito bem, mas ele fez um retrato excessivamente pró-europeu do conflito: os palestinos são idiotizados; quem vem de Israel, meu país, é inseguro; os africanos parecem ser manipuladores”, reclamou o crítico Avner Shavit, fã da estética do cineasta no manuseio da câmera.

Na ala dos fãs do filme, elogios à sobriedade do cineasta corriam soltos, incluindo analogias com o cinema de Costa-Gavras (sobretudo Z e Missing), diretor franco-grego que presidiu o júri da Berlinale em 2008, o ano da consagração de Tropa de Elite em terras germânicas. Paulo Portugal, do jornal Sol, de Lisboa, cravou, com muito entusiasmado: “Ele me surpreendeu ao cair numa trilha de thriller político tensa”.