Pete Doherty, do The Libertines, cambaleia, quase cai e transforma show em São Paulo em desastre
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Pete Doherty, do The Libertines, cambaleia, quase cai e transforma show em São Paulo em desastre

Pedro Antunes

25 Maio 2017 | 19h25

Músico de 38 anos é incapaz de conduzir um show sozinho, precisa da ajuda do guitarrista para lembrar as próprias letras e se torna um fantasma daquilo que já foi

Pete Doherty, em ação com o The Libertines, em ação no festival Popload Festival, em São Paulo (Elaria Andrade/Estadão)

Pete Doherty, o junkie que o mundo do rock aprendeu a amar graças ao trabalho com o The Libertines, ainda segue um caminho perigoso.

Talvez o mais perigoso de todos.


A autodestruição.

Era uma noite agradável de quarta-feira, 25, no Cine Joia, casa de shows localizada no centro de São Paulo.

Na recepção, comemorava-se o fato de que o libertino, em show solo acompanhado pela banda The Puta Madres, iniciaria a performance no horário marcado, às 22h.

Não foi bem assim, o atraso veio, mas o público esperou. Respeitosamente, curtiram a vibe do espaço.

Beberam cerveja sem pegar fila, fumaram cigarros no fumódromo sem muvuca. A casa não estava cheia, numa reação sintomática da decadência do músico inglês.

Doherty vem há tempos boicotando a própria carreira. Injetou porcaria nas veias, delirou sonhos impossíveis, irritou o companheiro de Libertines Carl Barat até a banda chegar a um fim tão fulminante quanto sua ascensão.

Depois de uma turnê de reunião com Barat e seus antigos companheiros, resultando em um disco e numa turnê que veio a São Paulo e não escorregou demais, como atração do festival Popload Festival, Doherty está visivelmente perdido.

E isso nos faz voltar ao palco do Cine Joia. Ele surge com os integrantes da Puta Madres, cambaleante. A banda se segura nas canções para não causar ruído demais e não fazer Doherty se perder no caminho entre a bateria e o microfone erguido para ele.

Ainda assim, perdeu-se algumas vezes naquele espaço de poucos metros quadrados. Perdeu-se também nas letras das próprias composições.

Tocou a guitarra virada ao contrário – ou seja, nas costas do instrumento – sem perceber que sua palheta não tocava corda alguma.

Pete Doherty, em ação com o The Libertines, em ação no festival Popload Festival, em São Paulo (Elaria Andrade/Estadão)

No primeiro trecho do show, cuja duração não chegou a uma hora, foi auxiliado pelo guitarrista Jack Jones, da banda inglesa Trampolene, incontáveis vezes.

Parecia ser, Jones, o único preocupado com o que ocorria no palco. Alongava acordes quando Doherty perdia a deixa para cantar, gesticulava com o restante dos músicos para acelerarem ou diminuírem o ritmo das canções, cantava no ouvido de Doherty quando ele parecia ter esquecido quem era.

E talvez seja isso. Na jornada da música há 20 anos, Doherty tenha esquecido quem é, o Peter por trás do personagem Pete. Está aprisionado pela persona que criou para si, fosse para fugir das angústias, ansiedades, fosse para ser cool. Uma persona que inala e injeta. Bebe e fuma. Que ganhou quilos desde o estrelato com o Libertines. Que perdeu quase todos os dentes da boca.

Fora do palco por quase meia hora, Doherty voltou diferente. Mais alucinado do que na primeira parte do show, menos cambaleante.

Balbuciou mais alguns versos, coisas de Libertines e da carreira solo, cujo último disco Hamburg Demonstrations, do ano passado, é ótimo (ouça algumas músicas abaixo).

E o repertório, embora tenha existido, é todo esquecível. As canções cantadas por Doherty e tocada pela banda eram tão desleixadas que se embolavam. Pete Doherty parecia sem energia, mesmo recarregado no intervalo do show.

Quando se jogou na plateia, ao do show, pessoas gritaram. Temi que ele se esborracharia no chão, sem ajuda. Caiu nos seus, foi agarrado. Era gente que acompanha sua carreira e desventuras amorosas e ilícitas. Todos donos de uma paciência exemplar para esperar o intervalo entre o show e o bis.

Ali, Doherty teve um lampejo daquilo que foi no seu auge.

Foi um mito moderno, o poeta inglês criado na perdição.

Ídolo trágico.

Hoje, não consegue fazer uma apresentação razoável. Beira o desastre.

Hoje, Pete Doherty é só um fantasma.

É um desperdício.

E triste.