‘Coachella do cerrado’?: Festival CoMA prova que, unida, a cena independente está forte – e é linda
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‘Coachella do cerrado’?: Festival CoMA prova que, unida, a cena independente está forte – e é linda

Pedro Antunes

08 Agosto 2017 | 11h35

Realizado entre os dias 4 a 6, em Brasília, evento contou com shows de Emicida, Rico Dalasam, Jaloo, Far From Alaska, Scalene, entre outros

Scalene (Foto: Yvã Santos)

De Brasília

Pulsa, a cena existe.
Viva, a cena é forte.
Grita, a cena faz barulho.


E a imagem, por si só, é sintomática. No palco da Scalene, a banda de Brasília que estourou a bolha com performances de músicas autorais no programa SuperStar, da TV  Globo, uma algazarra.

Gente pulando, gente gritando, gente cantando. Ali, fãs, convidados e integrantes de grupos contemporâneos. Os olhos encontravam o pessoal do Far From Alaska, do Francisco, El Hombre, do Supercombo, do Medulla.

Todos, unidos, no penúltimo show da primeira edição do Festival CoMA (Convenção de Música e Arte), encerrado por Lenine, na noite de domingo, 6, no palco posicionado do outro lado do gigantesco gramado da área entre o centro de convenções, o Planetário, o Clube do Choro e a Funarte, em Brasília.

São novos tempos. E unidas, as bandas são mais fortes – aqui o clichê é bem-vindo. Internet, o fim das grandes gravadoras como únicas provedoras de conteúdo musical, o underground, o “faça-você-mesmo”. Tudo está interligado.

O CoMA tem, entre seus realizadores, Tomas Bertoni, guitarrista do Scalene. Foram mais de 50 shows, palestras, workshops e debates sobre música, mercado e jornalismo. Tudo, afinal, está interligado. Nada mais funciona sem o auxílio do outro.

Juntos, todos crescem.

Rico Dalasam (Foto: Nina Quintana)

É o conceito responsável por mostrar a existência dessa tal cena. E não estamos falando de proximidade sonora. O Far From Alaska dialoga com o peso da Scalene, tal qual como Rico Dalasam versa para dedos nas feridas como Emicida. Não é só isso, contudo.

A unidade não é musical. É de mentalidade.

A cena precisa ser – e atualmente é – um organismo vivo. Alimenta-se, cresce em conjunto. O que se convencionou a ser chamado de “independente” vai além do pop, é um modo de construir o próprio negócio.

O rolê, afinal, é um só.

É também o que fez do CoMA uma amostra do que está sendo feito, musicalmente falando, debaixo dos olhares das rádios e das emissoras de TV. Com excessão de Scalene, Emicida, Rico e Lenine, as bandas ali não necessariamente têm exposição midiática para multidões. Não significa que deixem de atrair milhares.

Foram 6 mil pessoas presentes no festival no sábado e 8 mil no domingo. Os números pode não chegar aos cinco dígitos, como os grandes festivais (Lollapalooza e Rock in Rio). E também não precisam. Não é necessário apostar em grandes nomes, frutos da era das majors, findada no fim dos anos 1990.

Enfileiraram-se showzões.

Carne Doce (Foto: Thais Mallon)

Carne Doce é espetacular. Como é bonito acompanhar a evolução da trupe liderada por Salma Jô e Macloys Aquino. São dois discos, um de 2014, que leva o nome da banda, e outro, de 2016, o Princesa.

No palco do início da noite de sábado, 5, Salma é um furacão. Canta por notas graves, passeia pelos agudos nos momentos pop. Dança, de olhos fechados, como hipnotizada pela própria banda. Cabelos no rosto, corpo em movimento, a acompanhar os improvisos, riffs e loopings de Mac e companhia. Soam pop, soam psicodélicos, tudo ao mesmo tempo. E o público reage, tal qual Salma, ao convite à essa viagem onírica, sinestésica.

O Carne Doce está em expansão.

O Ventre, trio pesadíssimo que vem do Rio de Janeiro, é a prova de que três integrantes podem soar como um batalhão. Eles têm, nos ecos melancólicos cantados por Gabriel Ventura, seu norte. A acompanhá-lo. Hugo Noguchi e Larissa Conforto, no baixo e bateria, espremem os limites dos seus próprios instrumentos. Larissa dá o pulso e Noguchi faz suas cordas soarem, em acordes, como um híbrido entre guitarra e baixo.

Em expansão também está Rico Dalasam, outra atração do sábado, cuja música não é mais somente rap. Ele versa, fala, mas também canta – e é quando acerta no nervo. Faz dançar, faz pular, pulsa em uníssono com um público cada vez maior.

Lenine (Foto: Thais Mallon)

O CoMA evidenciou a evolução desses artistas nos palcos – mesmo gigantescos, como os montados pelo festival. Dalasam é devastador. Jaloo está a caminho disso. A timidez foi deixada lá atrás, no passado, e a comunicação com o público está cada vez mais eficiente. Se ele dança, a gente dança junto. Se ele canta, fazemos o mesmo.

Emicida sabe o que faz no palco – e faz tempo. Principal nome da primeira noite, ele é porrada e afago, é olho roxo e cafuné, ancorado pelo ótimo álbum mais recente, o Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa.

É, afinal, um festival de música. Não de rock, de rap, de pop. Como definir o Carne Doce? Os cabrestos dos gêneros já não servem de nada. Música é arte. E arte é sensação, são os pelos dos braços arrepiados, seja pela ironia divertida de Clarice Falcão ou a alegria efusiva de Francisco, El Hombre, ambas atrações de domingo.

Emicida (Foto: Cadu Andrade)

Pode ser também na pancada sonora do Far From Alaska, a banda dona do disparadamente melhor show do CoMA, com um disco fresquinho, Unlikely, lançado poucos dias antes do festival, na sexta-feira, 4. Um grupo que navega contra todas as convenções (estúpidas). Soam pesados, têm duas garotas nos microfones a cantar em inglês. Contra tudo, preconceitos emburrecedores, o Far From Alaska é um petardo.

Barulho. E dos bons.

Ruidosa, a Scalene é outro exemplo de como aquele que diz que o rock brasileiro morreu não poderia estar mais enganado. Tal qual a ideia de que o grupo é um produto televisivo sem força. Quantos enganos!

Far From Alaska (Foto: Breno Galtier)

Dona do segundo show mais pesado do festival, ela tocou em casa, diante de braços erguidos e gritos efusivos. É tanto apreço pelo ruído que as guitarras por vezes soavam mais altas do que os vocais de Gustavo Bertoni – o que não impedia de se ouvir o público a berrar as letras daquelas canções.

Como o FFA, o Scalene também tinha músicas novas para testar no palco. Cartão Postal, por exemplo, estará em Magnetite, o álbum do grupo a ser lançado no dia 18 de agosto. Inédita, Distopia tem tem falsete e calmaria. E um refrão com quilos de distorção. É uma banda pronta para soar em arenas e grandes palcos.

Reunida, a cena transcende.
Exposta, a cena se prova.
Provocada, a cena incendeia. 

Leonardo Ramos, do Supercombo, em participação no show do Far From Alaska (Foto: Breno Galtier)

Far From Alaska (Foto: Kaio Assis)

Lenine (Foto: Thais Mallon)

Scalene (Foto: Cadu Andrade)