Cauê analisa, sem querer ou querendo, crise contemporânea do “eu” no disco de estreia ‘Pra Vender’; ouça
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Cauê analisa, sem querer ou querendo, crise contemporânea do “eu” no disco de estreia ‘Pra Vender’; ouça

Pedro Antunes

05 Setembro 2017 | 09h20

Cauê (Foto: Felipe Augusto / Sami Makino)

“Como eu faço para ser igual a vocês?”
O músico Cauê pergunta em Igual a Vocês, a penúltima faixa do disco de estreia dele.

Pra Vender é lançado com exclusividade aqui no Outra Coisa – o álbum chega às outras plataformas de streaming na quarta-feira, 6.

É um existencialismo moderno. A crise contemporânea do eu.


O “quem somos?” e “para onde vamos?” nos tempos de hoje.

E o que é o “hoje” de uma juventude de 25 a 35 anos que não um poço quase sem fim de incertezas e questionamentos, com a completa falta de entendimento do mundo ao redor?

Sem querer, ou talvez mesmo querendo, Cauê cria, neste álbum produzido pelo Rafael Castro, o que possivelmente é o maior problema dessa geração:
Na incapacidade de entender o “eu”, como é que vamos compreender o “eles”?
O que dizer, então, do “nós”?

Com uma composição afiada, por vezes irônica, noutras com honestidade sem tamanho, Cauê é o retrato de um caos emocional dividido em nove canções.

É um álbum para se ouvir em looping. Rir com Cauê, às vezes de nervoso (afinal, quantas vezes ele, ao cantar sobre si, fala de nós mesmos?).

Capa de ‘Pra Vender’, de Cauê

Pra Vender é uma euforia melancólica. E, sim, ambas podem caminhar juntas, como Cauê nos mostra. Sua voz é doce e sem exageros. Estranha, às vezes, no diálogo com a instrumentação que pode ser de sintetizadores ou violinos. Mas até isso, o estranhamento, soa como uma provocação.

Ao final dos 28 minutos de disco, o ouvinte se sente assim, provocado. Ao menos para entender os motivos pelos quais foi levado a se identificar tanto com as crises expostas pelo músico.

Inútil foi a primeira canção do disco a ganhar clipe (que pode ser assistido aqui abaixo) e condensa o que foi escrito até aqui.

A embalagem eletrônica, robótica, em contraste com a quentura dos violinos. A voz estranhamente viciante. O discurso duplo.

Cauê canta o músico em busca de um novo hit, viciado pelo sucesso, tragado e desesperado pela escuridão do descaso. Uma ferroada ao meio no qual ele, Cauê vive e sobrevive: a música.

Também é uma canção de amor, afinal. Do desprezo sentido ao ser deixado para trás. Um alguém outrora amado que, hoje, lamenta por ser  um número de telefone para aquelas ligações inebriadas da madrugada ou uma transa sem sentido.

 Ouça Inútil: 

Já conhecido no rolê da música alternativa – ele é coautor, por exemplo, da excelente Eu Vou Parar de Beber, de André Whoong -, Cauê tem uma composição narrativa.

Até mesmo quando não diz muito – ou está mudo.

Ouça Mudo:

No dueto acima com Maurício Pereira, outro discurso duplo. Outra narrativa econômica nas palavras. Por vezes, o “espera que eu já vou falar” é seguido de nada, afinal. Não há o que se dizer. Somente olhar. Sentir. Lamentar.

São tempos de emojis, afinal. Piscadelas, olhos de coração.
São tempos de WhatsApp, também. Visualizar e (não) responder.
São tempos de Instagram, não é? De likes, DMs.

São tempos de sorrisos fotografados à poucos minutos do tropeção, do caldo, do gorfo, mas eternizados ali. Dentes à mostra e vida perfeita.

“Mas como é que eu vou ser feliz igual vocês?”, pergunta Cauê.
E a resposta já está aqui.
De perto, meu caro, somos todos iguais.

O show de estreia de ‘Pra Vender’ ocorre no dia 13 de setembro, quarta-feira, às 21h, noTeatro Viradalata (Rua Apinajés, 1387 – Sumaré). A apresentação terá as participações de André Whoong, Luiza Lian, Luna França e Tamiris Soler. Ingressos a R$ 20 (antecipado) a R$ 30 (porta). Para comprar, clique aqui.

Ouça Pra Vender:

(O autor do blog publica, todos os dias, no Instagram, os drops Tem um Gato na Minha Vitrola, com dicas e avaliações sobre o melhor da nova música brasileira. Nos vemos por lá?)