Análise: A voz do grunge, Chris Cornell melhorou com o tempo e longe da guitarra
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Análise: A voz do grunge, Chris Cornell melhorou com o tempo e longe da guitarra

Pedro Antunes

18 Maio 2017 | 09h50

Embora tenha despontado com o Soundgarden, foi quando Cornell se distanciou da banda que sua voz pode realmente ser ouvida

Chris Cornell (Foto: Jeff Lipsky)

A barulheira das guitarras estridentes e distorcidas do grunge, os anos de abuso de álcool, tratado após a internação em uma clínica de reabilitação, em 2003, e dos berros. E, ainda assim, Chris Cornell foi capaz de se manter tinindo. Melhor ainda, ele se aprimorou. Aos puristas, os roqueiros, os haters de modo geral, já peço desculpas de antemão. Livre do peso do rock, a voz de Cornell pode voar livre, melhor do que nunca.

Basta comparar as versões de Black Hole Sun. No disco Songbook, a música foi registrada ao vivo no Red Robinson Show Theatre, em Vancouver, em 2011. É muito distante daquela gravada pelo Soundgarden. Ali, Cornell tinha apenas o seu violão para acompanhá-lo. O que poderia soar como uma cópia de si mesmo e do que algum dia já foi, transforma-se em algo novo.


Ouça Black Hole Sun, do Soundgarden:

No registro ao vivo, Cornell mostra a nova descoberta. A sua redescoberta. Sem a guitarra de Kim Thayil e do baixo de Ben Sheperd, ele desconstrói hino fundamental do Soundgarden. Clama pelo sol negro, para que ele leve a chuva – e a depressão – embora. Tem leveza na voz rouca de Cornell, nos primeiros versos, até a chegada do refrão, da explosão.

Com o Soundgarden, Cornell foi fundamental. Abriu caminhos depois percorridos por outras grandes vozes do grunge, como Eddie Vedder, do Pearl Jam, e Kurt Cobain, do Nirvana – sim, Cobain também entra na lista de bons vocalistas, embora o músico morto em 1994 detestasse saber disso.

Os discos Badmotorfinger e Superunkown, de 1991 e 1994, trouxeram hinos ao rock alternativo. Do primeiro, vieram Outshined e Rusty Cage, as duas carregadas de distorção e berros por parte de Cornell. Com Superunkown, The Day I Tried to Live, a já citada Black Hole Sun e Fell On Black Days indicavam os nuances de uma voz cujo alcance ultrapassava as oitavas.

Cornell não se encaixava propriamente em nenhuma escola de vocalistas do rock. Não derivava diretamente da cena de hard rock e heavy metal dos anos 1980, nas quais a estridência e a cristalinidade eram recorrentes. Era capaz de atingir as zonas agudas, sem perder o timbre. Herdou algo do rock setentista, capitaneado por Robert Plant e seu Led Zeppelin, embora o tenha feito de forma contemporânea.

Tem raízes no punk e na escuridão de Seattle. Era um fruto do seu habitat. De uma cena que redescobria o sabor da sujeira.

As tensões entre os integrantes do Soundgarden eram grandes demais. Eclodiram com a separação da banda, em 1997, mesmo ano da estreia de Cornell como artista solo, com o disco Euphoria Morning.

Ouça Can’t Change Me, do disco Euphoria Morning:

Ainda era cedo para Cornell deixar o peso do rock de vez. Juntou-se com integrantes do Rage Against the Machine, Tom Morello (guitarra), Tim Commerford (baixo) e Brad Wilk (bateria). Com eles, experimentou novos cantos da sua voz. A guitarra de Morello não preenchia tanto espaço, desenhava mais os riffs e abria espaços para a voz de Cornell. A sintonia do quarteto produziu três discos, Audioslave (2002), Ouf of Exile (2005) e Revelations (2006), antes de ser desfeita.

Ouça Like a Stone, do primeiro disco do Audioslave:

Com Carry On, o segundo disco solo, de 2007, Cornell ainda parecia lutar para encontrar a sua identidade artística e estilística. Nesse álbum, por exemplo, ele gravou Billy Jean, uma cover de Michael Jackson presente nas apresentações dele até o fim da vida.

O trabalho seguinte, Scream, é a sua pisada de bola. Aproximou-se do pop, sob as orientações de Timbaland, produtor responsável por grandes hits radiofônicos no fim da primeira década dos anos 2000. Bateria eletrônica e sintetizadores parecem não falar a mesma língua de Cornell.

Ouça Nothing Compares 2 U, cover do Prince:

Em Songbook, Cornell registrou a turnê com voz e violão. Hits do passado repaginados para o formato fluem de forma natural, conversam entre si. Desnudado dos excessos, Cornell brilha sem precisar levantar do banquinho posicionado no meio do palco, formato razoavelmente mantido no último disco solo, Higher Truth, de 2015 – no intervalo entre os álbuns, veio King Animal, o último disco do Soundgarden.

Chris Cornell ainda precisava de tempo. De mais discos, mais canções. Aos 52 anos, estava prestes a encontrar a maturidade sonora. O caminho apontava para um espaço menos barulhento e ruidoso. Há quem diga que o peso fazia falta. Bobagem. Soava promissor.