Ser contra a Apple vira febre e é o novo odiar o sistema

Estadão

08 Outubro 2012 | 18h10

“Esfomeado? Idiota, temos vagas, venha ficar com a gente”, o dizer está em cima de uma maçã mordida dos dois lados, meio podre, e ilustra um cartaz que se espalha pelas ruas de Berlim. Em uma loja, uma camiseta avisa: “a vida era melhor quando a Apple e o Blackberry eram só nomes de frutas”. Ao lado, uma sacola escrita “I Po” (algo como I cocô) é ilustrada por uma privada.

A “moda” dos produtos anti-apple pode ser encontrada com tranqüilidade na internet. Sim, é fácil comprar camisetas que falam mal da marca. “Amigos não deixam amigos comprarem computadores da Apple”, diz uma. Há também capas para computador escrito… “I Hate Apple”. Sim, você pode colocar um adesivo anti-apple em seu PC ou em seu… Apple!

A Apple parece significar todo o sistema capitalista. O “odeio o sistema”, grito comum entre os punks, anarquistas e adolescentes, virou “odeio a Apple”. Faz sentido? Algum. Assim como desperta paixão desesperada de seus admiradores, a companhia significa hoje o máximo do capitalismo (bem sucedido). A empresa faturou em 2011 mais que o PIB de 160 países e vendeu cerca de 35 milhões de iPhones no primeiro trimestre do ano. A chegada do iPhone 5 provocou histeria mundial e o produto é vendido em Berlim por cerca de mil euros (valor absurdamente alto para uma das cidades mais baratas da Europa).

Será que as pessoas que falam mal da Apple, usam camisetas, riem bem alto e gritam param de consumir os produtos? Alguns sim. E resistem com braveza. Falar mal do sistema costuma ser saudável (mesmo estando dentro dele). Outros usam os produtos da marca e falam mal da companhia. Quem faz isso deve estar rindo da sua própria necessidade maluca de consumir. Rir de si mesmo também costuma ser saudável. Ou será que quando usamos uma camiseta com o slogan “I hate Apple” estamos dizendo: “Eu me odeio”? Freud explicaria.