Largar o Facebook é o novo “mudar para o campo”

Estadão

04 Junho 2012 | 13h28

“Saí do Facebook”. De um tempo para cá, alguns amigos têm me dado essa noticia com tom de alivio, sucesso, e já prevendo reações de espanto. “Estou correndo, escrevendo meu livro e larguei todas as redes sociais. Estou me sentindo muito bem”, escreveu outro dia um deles por e-mail.

Sempre reajo dando parabéns. Nem penso muito no motivo. Mas dou tapinha nos ombros tal qual uma frequentadora de um grupo de autoajuda para viciados. E não é isso o que somos? Olha a expressão. “Larguei”. “Estou me sentindo melhor”.

Sair do Facebook hoje é também uma atitude meio alternativa, hippie. Tipo: “olha, não uso mais gravata”. “Abandonei meu emprego careta”. E quando conheço alguém que não tem Facebook olho para essa pessoa como se ela fosse alguém mais iluminado do que eu.

Hoje, acordo e leio dois textos sobre isso. Alexandre Matias escreveu em seu blog aqui nesse portal (http://blogs.estadao.com.br/alexandre-matias/2012/06/03/o-dia-em-que-minha-conta-do-facebook-foi-desativada) que teve sua conta de Facebook desativada pela “empresa”. De cara, teve duas reações. A primeira foi pânico. A segunda foi alivio. “Não vou ter mais que me preocupar com o Facebook.” Ele conta também que o número de usuários parou de crescer vertiginosamente e que há a possibilidade de que, no futuro próximo,  muita gente “largue o Facebook”.


No mesmo dia, recebo um link de uma jornalista do New York Times que largou a rede. Pensem. O Facebook é tão importante nas nossas vidas e um vício tão desgraçado que alguém sair da rede rende uma excelente crônica para o NYT. Sair do Facebook é notícia.

Muitas teorias dizem que nossos dados são compartilhados mundo a fora e que por estar no Facebook todo mundo sabe tudo da nossa vida. Pode ser. Li também que o sistema de publicidade é tão eficiente que funciona da seguinte maneira. Eles rastreiam seus interesses e colocam na sua página coisas que tenham aquilo que a gente gosta, se interessa, a idade que você tem. Pode ser verdade. Olhei meus anúncios. Produto de rejuvenescimento para quem tem 40 anos (nossa, como eles descobriram?), sandália em color block (ok, sou meio vítima da moda, faz sentido) e curso intensivo de inglês (gente, eles sabem até que o meu inglês é péssimo? Será?).

Um dia, quem sabe, eu serei uma pessoa iluminada e largarei o Facebook. Mas não é porque eles sabem tudo da minha vida, fazem jogadas de publicidade assustadoras e são caretas ao ponto de tirar fotos da “Marcha das Vadias” dos perfis dos usuários. O dia em que eu largar (e eu pressinto que nunca alcançarei esse estágio de iluminação) vai ser por um motivo mais prosaico: cuidar mais da minha vida. Olhar menos para o profile do vizinho, que insiste em ser mais verde que o meu todos os dias e me concentrar no meu (que não, não vai precisar ser mostrado para todo mundo). O Facebook faz a gente se sentir loser. Não, não consigo não comparar a minha vida com a dos outros. E a vida dos outros costuma ser bem editada. Já existem estudos que mostram isso. “Nossa, aquela garota da faculdade teve dois filhos, ela que deve ser feliz.” O Facebook deprime, aponta estudo.

Um dia, quem sabe, eu largarei não só o Facebook, mas também o Instagram e o Twitter. Um dia, quem sabe, eu vou morar na praia, ou no campo, viver de subsistência, parar de consumir. Sim, hoje em dia, largar as redes sociais é o novo ter uma casa no campo.

PS. Enquanto esse dia não chega, vou ali ver se alguém deixou uma mensagem no meu mural. Aff!